Por Chiara Lombardi — No Festival de Sanremo que marca o primeiro ano sem o maestro Peppe Vessicchio, o tributo público na abertura da kermesse reverberou como um pequeno clímax coletivo. Ontem, durante a primeira noite, Carlo Conti reservou um momento para lembrar o legado do maestro — e hoje, na televisão, a memória ganhou um rosto: sua filha, Alessia, convidada do programa La volta buona, apresentado por Caterina Balivo.
Em tom contido, mas evidente na voz embargada, Alessia confessou: “Estou destruída, mas cheia de emoções bonitas. Em dois dias recebi tanto amor”. A filha do maestro traduziu em palavras aquilo que o público já sentira na arena de Sanremo: a falta do homem que durante décadas estruturou arranjos e conduções que fazem parte da memória musical italiana.
O momento mais simbólico na conversa veio quando Caterina Balivo entregou a Alessia um presente carregado de significado — um spartito d’oro da SIAE, um reconhecimento oficial que funciona como um espelho do impacto cultural deixado por Peppe Vessicchio. “Isto é para você, para sua mãe e para seu pai, que nós continuaremos a amar”, disse Balivo. A reação de Alessia foi imediata: lágrimas, agradecimentos e a lembrança de um afeto que extrapola os limites do privado.
Ao falar do tributo no palco do festival, Alessia destacou a força de uma standing ovation que ela descreveu como «comovente» e que, para ela, “significou tudo”. Essa resposta coletiva do público transforma o que poderia ser apenas um gesto protocolares em um dispositivo de memória: um refrão público que reafirma a centralidade do maestro na paisagem sonora contemporânea.
Como analista, percebo nesse episódio algo além do drama imediato. A presença emocionada de Alessia na televisão funciona como um reframe — ela reconstrói a narrativa do luto em direto, transformando ausência em cerimônia cultural. É o roteiro oculto da sociedade que se desenha nos microgestos: um presente simbólico, aplausos, a voz que treme — pequenos atos que reorganizam o luto em coletivo.
O tributo a Peppe Vessicchio em Sanremo e o encontro subsequente em estúdio com Caterina Balivo compõem um eco cultural. Eles nos lembram que o entretenimento não é só distração: é arquivo emocional, hardware de memórias que resistem à passagem do tempo. Para os espectadores e para a família, a homenagem foi uma constelação de significados — e, para quem observa, um convite a pensar como a música funciona como cartografia da identidade.
Ao término do programa, Alessia reiterou sua gratidão: “Obrigado de verdade. Você me demonstrou afeto desde o primeiro dia, agradeço muito, Caterina. Você tem realmente uma alma bonita”. Palavras simples, mas carregadas; ecos que permanecerão nas próximas edições do festival e nas conversas de cafés, como se cada aplauso fosse uma tomada que revive uma obra no grande filme da cultura italiana.






















