Enquanto o público acompanha cada nota e figurino do Festival, o palco de Sanremo também se tornou um espelho onde comércio e cultura se refletem — e, por vezes, se confundem. Nos últimos dias surgiram denúncias de possíveis casos de publicidade oculta envolvendo nomes em destaque: de Fedez com um dispositivo ligado ao tabaco, a polêmicas sobre acessórios de Dargen D’Amico e a colaboração comercial de Malika Ayane com um produto de beleza.
O primeiro foco de atenção foi uma Instagram story do rapper Fedez, em que ele convidava seus milhões de seguidores para um “meet & greet” promovido por uma marca de sticks com nicotina e por um dispositivo para aquecer o tabaco. A Unione Nazionale dei Consumatori questionou se a promoção do aparelho não estaria, ainda que indiretamente, incentivando o consumo de tabaco, em potencial violação do Decreto Legislativo n. 6/2016, que proíbe “qualquer comunicação que tenha o objetivo ou o efeito direto ou indireto de promover cigarros eletrónicos e recipientes de líquido de recarga”. Além da legalidade, a associação levantou a questão ética: artistas com grande audiência não teriam a responsabilidade de transmitir mensagens que promovam a saúde em vez de risco?
Em paralelo, o Codacons apontou para um episódio envolvendo Dargen D’Amico, que subiu ao palco com um flor laranja atrelada a uma marca de bebidas alcoólicas — um sinal, segundo a associação, suficiente para configurar uma promoção não declarada, mesmo sem logotipo visível. Dargen rebateu em coletiva: disse não ter acordos com a marca (mencionada nas críticas como Aperol) e ironizou a noção de que elementos simbólicos no figurino já pertençam às empresas. O embate expõe como, em um espetáculo televisivo, vestígios semióticos podem ser interpretados como peças de uma campanha comercial encoberta.
Outra aresta da discussão veio por meio da crítica Selvaggia Lucarelli, que chamou atenção para a colaboração de Malika Ayane com o laboratório de cosméticos Veralab. A marca lançou um kit de beleza chamado “Animali notturni“, mesmo nome da canção de Ayane em competição. À venda online, o kit tende a ganhar visibilidade extra graças à exposição proporcionada pela vitrine da RAI, levantando dúvidas sobre o uso do espaço artístico para promoção comercial.
Mais do que apontar culpados, esse circuito de episódios nos convida a pensar sobre o roteiro oculto que liga entretenimento, marcas e audiência. Sanremo não é apenas um festival de canções: é um cenário de transformação cultural, onde a semiótica do viral e o mercado se encontram, por vezes, sem rótulos claros. A legislação existe — como o já citado Decreto Legislativo —, mas a velocidade das redes e a sutileza dos sinais colocam desafios de interpretação e fiscalização.
Do ponto de vista social, há uma questão de responsabilidade simbólica. Artistas detêm influência; suas escolhas narrativas e estéticas reverberam na memória coletiva. Quando um acessório, uma história no Instagram ou um kit de beleza cruzam o palco, eles não só promovem produtos: moldam discursos sobre consumo e valores. É por isso que pedidos por maior transparência e regras mais claras ganham força: não apenas para proteger normas jurídicas, mas para preservar o tecido simbólico que define o que valorizamos como sociedade.
No fim, as suspeitas de publicidade oculta em Sanremo são um lembrete do quanto o entretenimento é, hoje, também um campo de disputa cultural e comercial. Resta ver como as autoridades, as emissoras e os próprios artistas vão reescrever esse roteiro — e se a clareza vai prevalecer sobre a sutileza estratégica.






















