Em um gesto que ressoa como um afresco institucional sobre o palco da música italiana, o Festival de Sanremo alcança um marco inédito: pela primeira vez em 76 edições, o Presidente da República, Sergio Mattarella, receberá no Quirinale os protagonistas do festival. O anúncio foi feito por Carlo Conti em suas redes sociais: “Hoje há uma grande notícia que diz respeito ao Festival de Sanremo — depois de 76 edições, pela primeira vez os protagonistas serão recebidos pelo Presidente da República. Na sexta-feira, 13 de fevereiro, eu, Laura Pausini e os Big em competição seremos recebidos por Mattarella no Quirinale”.
Esse encontro não é apenas um protocolo: é uma declaração simbólica. Ao abrir as portas do palácio presidencial aos artistas antes do início das noites da kermesse, o Presidente confere ao Festival um estatuto que ultrapassa o entretenimento televisivo e entra na esfera do patrimônio cultural nacional. Em outras palavras, o evento volta-se de espetáculo para relicário coletivo — o roteiro público que ajuda a narrar identidades e memórias italianas.
Para quem observa o fenômeno cultural com um olhar de análise — como eu, entre a Itália e o Brasil, a salvo de simplificações e sempre em busca do “porquê” —, esse momento funciona como um espelho do nosso tempo: a música popular, as narrativas televisivas e a própria presença mediada do Estado se encontram num enquadramento que reconfigura o valor social do show. Não é apenas aplauso: é reconhecimento institucional que traduz a música em patrimônio.
O gesto também evoca precedentes recentes: em 2023, o próprio Mattarella já participara da primeira noite do Festival, ocasião em que a abertura foi assinada por Roberto Benigni. Agora, a recepção formal no Quirinale amplia a presença presidencial: do público à recepção oficial, do efeito de cena à atribuição de valor cultural. A diferença é sutil mas decisiva — como a sala escura de um cinema que muda, de repente, o foco do filme.
Do ponto de vista prático e simbólico, a ação de 13 de fevereiro consagra uma nova fase para Sanremo: o Festival deixa de ser apenas um evento pontual de audiência e passa a ocupar um lugar de referência na narrativa cultural do país. Para artistas como Laura Pausini e para o conjunto dos Big, é um reconhecimento que amplifica a dimensão pública de seu trabalho.
Que leitura devemos fazer desse ato? Como todo grande plano de cena, ele permite múltiplas leituras: reafirma a centralidade da música popular na construção de imaginários coletivos; reforça a conexão entre Estado e cultura; e, por fim, reconfigura o modo como o Festival será lembrado — não apenas como programa de televisão, mas como parte do patrimônio simbólico italiano. Em 4 de fevereiro de 2026, essa notícia foi anunciada, e em 13 de fevereiro o roteiro se transforma em cena oficial: o Quirinale como palco de um reconhecimento que ultrapassa fronteiras de gênero e de mídia.
É uma virada histórica que nos convida a olhar o Festival com a atenção de quem revisita um clássico: o que mudou no enredo coletivo? E que ecos culturais esse gesto produzirá no futuro próximo? O Sanremo recebeu um carimbo institucional — e a música, como sempre, continuará a nos contar quem somos.






















