Por Chiara Lombardi — A cortina do Ariston quase sempre revela mais do que a canção: é um espelho do nosso tempo. Nesta edição do Festival, Francesco Renga chega com a calma de quem transformou a tensão em gesto ritual. O cantor, em disputa com o tema Il meglio di me, contou que escolheu um almoço leve — um branzino — para subir ao palco sem peso e com a voz afinada.
Segundo relatos da gravação para o programa La volta buona, Renga soube qual será sua posição no show: ele tocará como penúltimo da noite. E, ao invés de demonstrar nervosismo, o artista brincou com a situação: «Melhor assim, posso ver a Inter». A frase diz muito sobre a fusão entre vida pública e afeto privado: ao mesmo tempo em que enfrenta o ritual do festival, Renga mantém o vínculo com sua paixão futebolística — e com a expectativa de milhões que acompanham ambos eventos.
Há algo de cinematográfico nessa escolha: a posição penúltima no roteiro do festival funciona como um plano de tensão antes do clímax final. Para um intérprete, estar quase no fim significa carregar na voz e no corpo a expectativa acumulada da noite. Para Renga, significa também a possibilidade pragmática de assistir ao confronto que importa para ele — o jogo de volta entre Inter e Bodo/Glimt pelos playoffs da Champions League. “Partita fondamentale, dobbiamo vincere questa volta”, disse ele, lembrando que a atenção ao time não é mera distração, e sim uma outra forma de investimento emocional.
Do ponto de vista cultural, essa declaração revela como eventos de alto consumo simbólico — um festival musical e um jogo decisivo de futebol — dialogam e se espelham. Ambos oferecem narrativas de esperança, derrota e redenção. A escolha do cantor por um almoço leve, a preferência por uma posição estratégica no cronograma e a torcida explícita pela sua equipe desenham um pequeno roteiro do cotidiano artístico: microdecisões que moldam performance e imagem pública.
Renga também comentou que, se pudesse, teria preferido ficar em primeiro lugar para garantir a visualização da partida, ou então entre os últimos, pela mesma razão. Esse descompasso entre logística do festival e calendário esportivo deixa transparecer o ritmo físico e psicológico que artistas contemporâneos precisam administrar — um reframe da realidade em que a mídia e a paixão coletiva se entrelaçam.
Ao final, a serenidade de Renga parece menos fruto de despreocupação e mais de uma prática trabalhada: cuidar da voz, da alimentação e da mente antes do grande momento. O branzino do almoço, o comentário sincero sobre a Inter e a leveza com que trata a posição no festival compõem um retrato humano, onde a performance artística é também ato de vida.
Em termos práticos, restará ao público e aos jurados decidir se a noite coroará o cantor. Mas, mesmo antes do primeiro acorde, o gesto de olhar para além do palco — para uma partida que promete ser “fundamental” — transforma a aparição de Renga em Sanremo em algo que ultrapassa a canção: é um pequeno manifesto sobre prioridades, afeição e o roteiro oculto que sustenta cada apresentação.






















