No palco histórico do Ariston, o espírito dos anos 80 e 90 ganhou uma nova pele: uma versão rock de Occhi di gatto proposta por Le Bambole di Pezza ao lado da rainha das siglas, Cristina D’Avena. Foi um mergulho coletivo na memória pop, um reframing sonoro que revelou o quanto a nostalgia pode ser também uma força criativa.
Vestida com um vestido de couro, correntes e mangas de renda, Cristina D’Avena não veio para reproduzir o passado em plano sequencial; ela o reinterpretou. Ao lado da banda, a emblemática abertura do desenho animado foi “bambolizzata”, como definiram as cinco integrantes do grupo: uma apropriação que mistura afeto e atitude, como se a trilha sonora da infância tivesse ganhado filtro de distorção e atitude.
O espetáculo não se contentou com o encontro entre a tradição das siglas e o impulso garage-rock: houve uma transição ousada para sonoridades de Led Zeppelin, com um desfecho acelerado e controlado pelo maestro Enrico Melozzi no palco. Aquele momento soou como um espelho do nosso tempo — o arco entre a inocência televisiva e a potência sonora que a contemporaneidade exige.
Trajetória de uma intérprete pop-cultural: Cristina D’Avena nasceu em Bolonha em 6 de julho de 1964. Ainda criança, com três anos e meio, participou do Zecchino d’Oro interpretando “Il valzer del moscerino” e conquistou o terceiro lugar. Inserida no Piccolo Coro dell’Antoniano, permaneceu como voz referência até meados dos anos 70, retornando posteriormente para acompanhar a irmã Clarissa.
O encontro com as siglas começou oficialmente em 1981, quando gravou a primeira canção-tema para o desenho “Pinocchio”, chamada por Giordano Bruno Martelli. Em 1982, a “Canzone dei Puffi” ultrapassou meio milhão de cópias, rendendo a ela um Disco de Ouro e projetando-a como a voz das gerações de então. A partir de 1983 integrou o elenco de Bim Bum Bam, e sua carreira ganhou contornos multiplataforma: além de cantora, tornou-se atriz ao protagonizar Love me Licia (1986) e outras produções subsequentes que consolidaram o personagem Licia no imaginário juvenil.
Ao longo das décadas, Cristina D’Avena converteu nostalgia em catálogo: em 2002 celebrou vinte anos de carreira com o duplo CD “Cristina D’Avena: Greatest Hits”; em 2009 lançou “Magia di Natale”; e continuou a aparecer em eventos televisivos de grande importância — entre eles o retorno a Sanremo em 2016 como convidada de honra, onde interpretou clássicos como “Kiss me Licia” e novamente “Occhi di gatto”.
Mais recentemente, sua presença em programas como Il cantante mascherato (2022) e atuações especiais em datas comemorativas reforçam um papel que é, ao mesmo tempo, cultural e afetivo. Em 25 de outubro (data mencionada no material de referência), recebeu o Telegatto pelos 40 anos de carreira, e uma compilação intitulada “40 – Il sogno continua” reuniu versões originais, inéditos e duplos com artistas contemporâneos — prova de que seu repertório segue dialogando com novas gerações.
O dueto no Ariston não foi apenas um tributo: foi uma narrativa visual e sonora que reencena a relação entre memória coletiva e reinvenção. Ver Cristina D’Avena em couro e correntes, em um encontro com uma banda que traz o nome e a atitude das “bonecas de pano”, é assistir ao roteiro oculto da sociedade atualizar-se — lembrando-nos que o entretenimento atua como um laboratório emocional onde memórias antigas são reinterpretadas e devolvidas com nova intensidade.
Para quem observa o fenômeno cultural, a cena é rica em significados: é o eco cultural de uma infância que virou referência estética, é a semiótica do viral que encontra sua origem nas melodias televisivas e as transforma em performance contemporânea. No fim, o público sai do Ariston não apenas com a lembrança de um clássico regravado, mas com a sensação de que o passado, quando bem reinterpretado, pode acelerar o presente rumo a possibilidades sonoras inesperadas.






















