Por Chiara Lombardi — O anúncio já ecoou como um prelúdio: «Estou já a trabalhar na próxima edição», disse o apresentador napolitano. Com a responsabilidade da condução e da direção artística do 77.º Festival de Sanremo, Stefano De Martino inicia uma montagem que parece menos improviso e mais assinatura autoral — um verdadeiro reframe do espetáculo popular como espelho do nosso tempo.
O jovem showman de Torre Annunziata, hoje com 37 anos, tem à sua disposição uma constelação de nomes que o acompanharam nos últimos cinco anos de televisão — tanto em Made in Sud como, sobretudo, em formatos de entretenimento como Stasera tutto è possibile e Affari tuoi. A lógica é clara: evitar surpresas e confiar numa equipa testada, seguindo a lição do veterano Amadeus, que sempre privilegiou a manutenção do seu círculo criativo.
Na frente artística, as pistas das possíveis escolhas já circulam com força. Entre os humoristas frequentemente associados a De Martino figuram Francesco Paolantoni, Peppe Iodice, Giovanni Esposito, Biagio Izzo, Vincenzo De Lucia e Herbert Ballerina. A partir de palcos como o de Made in Sud, nomes como Paolo Caiazzo, Enzo Fischetti, o coletivo Ditelo Voi e os Arteteca também aparecem como cartas possíveis no baralho do Festival. São escolhas que traduzem uma aposta no humor com identidade regional e num verniz popular mas calibrado.
No campo musical, especula-se sobre colaborações com cantautoras e artistas que já estiveram próximos ao universo televisivo de De Martino, como Simona Molinari e La Niña. A presença de convidados recorrentes nos seus programas — nomes como Elisabetta Canalis, Max Giusti, Brenda Lodigiani e a crítica Mara Maionchi — também está na lista de possibilidades: figuras que combinam familiaridade para o público com capacidade de gerar momentos televisivos memoráveis.
Do ponto de vista da direção artística, a grande novidade que desonera parte da escolha do casting é a entrada de Fabrizio Ferraguzzo como coadjuvante essencial. Ex-manager de Måneskin e Achille Lauro e membro dos Grammy, Ferraguzzo traz know-how do mercado musical internacional e foi confirmado pela Rai, através de Williams Di Liberatore, diretor de entretenimento prime time. A sua presença permitirá a De Martino concentrar-se mais na cenografia e na construção do entretenimento — o roteiro oculto que transforma cada ato num espetáculo zênite.
Na secção coreográfica, um nome se destaca: Marcello Sacchetta, o coreógrafo campano que ganhou visibilidade no último Festival por idealizar a dança viral de Sal Da Vinci em «Per sempre sì». Amigo de longa data de De Martino, Sacchetta é apontado como um dos principais candidatos a cuidar do movimento cénico do show, reforçando a ideia de que a componente física e visual será tratada com a mesma atenção que a musical e humorística.
O que está em jogo é mais do que um alinhamento de talentos: é a construção de uma narrativa televisiva que pretende ser reflexo e impulso cultural. Sanremo 2027, nas mãos de Stefano De Martino, pode transformar-se num palco onde a memória da televisão italiana encontra o pulso da contemporaneidade — um cenário de transformação em que cada convidado e cada coreografia contam um pedaço do roteiro social que estamos vivendo.
Se a lista final dos colaboradores ainda é sujeito a confirmação, o mapa de intenções já desenha uma estratégia clara: uma equipa próxima, equilibrada entre experiência e viralidade, e uma direção artística que mistura mercado e linguagem visual. Aguardemos, portanto, o desenrolar desta montagem: o Ariston pode estar prestes a acolher um espetáculo que conjugue a tradição festivaliera com o zeitgeist das formas do entretenimento.






















