Sanremo 2026: regras, jurados e a lógica por trás das classificações
No Sanremo 2026 atuam três diferentes instâncias de julgamento que, ao longo das cinco noites do Festival, decidirão quem será o vincitore. Há, primeiro, o voto do público via televoto. Em paralelo, existe a sala stampa — composta por jornalistas da tv, rádio e web acreditados — e, por fim, a giuria delle radio, formada por emissoras nacionais e locais. Essas três forças criam um pequeno roteiro público-privado que espelha gostos, interesses institucionais e a balança entre memória e mercado.
Quatro das cinco noites seguem um padrão parecido: uma (ou uma combinação) das giurie vota os artistas e é divulgada uma Top 5 dos mais votados daquela noite, porém sem ordem explícita para o público. A exceção formal é a serata cover, na sexta-feira, 27 de fevereiro: nessa noite o resultado aponta diretamente o artista vencedor da noite, somando televoto, sala stampa e giuria delle radio.
O formato da final também tem sua coreografia específica. Depois da primeira comunicação das cinco posições (sem ordem), os resultados das primeiras três noites são agregados para formar uma classifica generale. Os cinco artistas mais votados voltam ao palco, se apresentam novamente e são submetidos a uma nova votação das três jurias combinadas — e quem vencer essa rodada final é consagrado vincitore do Festival.
O que aconteceu nas primeiras noites
Na primeira noite, todos os Big se apresentaram e a votação foi feita integralmente pela sala stampa. Os cinco mais votados — anunciados sem ordem — incluíram nomes que desenham um mapa afetivo diverso: Arisa com “Magica favola”, que evoca infância e nostalgia; Fulminacci, na sua segunda participação, com “Stupida fortuna”, olhando o futuro; Serena Brancale, em seu terceiro Sanremo, que dedicou “Qui con me” à memória da mãe; e Ditonellapiaga, que em “Che fastidio!” criticou as hipocrisias sociais.
Também figuraram entre os mais votados Fedez e Masini, com “Male necessario”, música que trata de vulnerabilidade e da coragem de enfrentar o silêncio que é, paradoxalmente, um ruído. Vale lembrar que Fedez e Masini já tinham entrado na Top 5 na primeira noite.
Na segunda noite, os quinze artistas que se apresentaram foram avaliados com um peso dividido: 50% pelo televoto do público em casa e 50% pela giuria delle radio. Ao final da noite foi formalizada outra Top 5 dos mais votados — sem ordenação pública — que serve como termômetro das preferências entre audiência e emissoras.
Na quarta-feira, 26 de fevereiro (cronograma do Festival), os outros quinze cantores que não cantaram na estreia ocupam o palco seguindo o mesmo modelo de votação: 50% televoto e 50% giuria delle radio.
Serata Cover e o valor do reinterpretar
A serata cover representa um capítulo à parte: reinterpretar canções é um gesto de leitura cultural — uma espécie de reframe da memória coletiva. Nesta noite, o som do público, da crítica e das rádios se combinam para eleger um vencedor absoluto da noite, um prêmio que não só contabiliza votos como legitima uma leitura artística sobre o repertório italiano e suas camadas afetivas.
Em termos práticos, o sistema de televoto, sala stampa e giuria delle radio não é apenas um mecanismo técnico: é o espelho do nosso tempo, um pequeno palco onde se negocia autenticidade, visibilidade e a capacidade de traduzir sentimento em consenso.
Enquanto o Festival avança, acompanhar essas combinações de voto é entender o roteiro oculto da sociedade — que artistas resistirão, quais canções se tornarão hinos de temporada e como as diferentes vozes (público, imprensa, rádios) reescreverão, juntas, a canção vencedora do Sanremo 2026.






















