Por Chiara Lombardi — Espressione culturale da Espresso Italia.
A segunda noite do Festival de Sanremo 2026 desenrolou-se como um pequeno roteiro sobre o palco do Ariston: momentos de consagração, cenas que viraram memória coletiva e falhas que revelam a fragilidade do espetáculo ao vivo. Em poucas horas, o festival mostrou por que é, mais do que um concurso, um espelho do nosso tempo, um palco onde se dramatizam desejos de reinvenção e tensão entre visibilidade e silêncio.
O destaque incontestável da abertura foi a afirmação de Laura Pausini como coapresentadora. Foi a ela que coube iniciar a transmissão, recebendo Carlo Conti com familiaridade e autoridade. Vestida de preto total — uma tuta com alças fotônicas que dialogou com as luzes do palco — Pausini fez mais do que cantar: ofereceu energia física e simbólica. Numa sequência que será comentada entre torcedores do festival e fãs do FantaSanremo, a cantora se entregou a uma performance quase ginástica, com agachamentos no palco do Ariston. Se o festival é também espetáculo corporal, aqueles squats foram um gesto de presença: eficazes, surpreendentes e levemente irônicos — como quem transforma a autopromoção em coreografia.
Na prática da noite com apenas 15 Big em disputa, Pausini alternou momentos com e sem a presença de Achille Lauro, imprimindo ao papel de coapresentadora um tom híbrido entre anfitriã e performer. A sensação é a de que sua figura funcionou como um reframe da noite — ela reconfigurou expectativas e devolveu ao público um ritmo físico, quase endorfínico, que o festival às vezes perde entre números e intervalos.
Entre os momentos mais comentados, entrou em cena o jovem Soniko — DJ e produtor do trio Blind, El Ma & Soniko. O episódio revela, em microescala, as hierarquias do palco: quando os três subiram, apenas os dois cantores receberam microfones. Soniko pediu o microfone e foi ignorado pelos colegas, que fingiram não ouvir. O DJ respondeu com um olhar carregado, comparável ao do Ciclope dos quadrinhos: tenso, cortante. Mas do outro lado estava Blind, cujo nome de palco invoca a cegueira — e a ironia foi punho: Blind permaneceu impassível e, simbolicamente, deixou Soniko sem palavras. A cena foi curta, mas tem a qualidade de uma fábula moderna sobre visibilidade, autoria e silêncio.
O que esses fragmentos nos dizem? Sanremo continua a ser um laboratório onde se testam conjugações possíveis entre música, espetáculo, imagem pública e memética. Há glórias instantâneas — como a consagração de Pausini na condução da noite — e instantes de desconforto, que funcionam como pequenas rachas no verniz do show mediático. O público reagiu com calor: a plateia do Ariston aplaudiu e reparou; nas redes, as imagens já viraram eco cultural.
Em suma, a segunda serata foi uma lição sobre intensidade e dissonância. Entre brilhos de palco e olhares atravessados, o festival manteve seu papel de roteiro oculto da sociedade: entretém, desafia e, sobretudo, reflete o que somos — por vezes coordenados, por vezes contraditórios.
Palavras-chave: Sanremo 2026, Laura Pausini, Soniko, Blind, Top e Flop.




















