Por Chiara Lombardi — A noite da final do Sanremo 2026 foi, como sempre, um espelho do nosso tempo: cheia de brilhos e sombras, aplausos e suspiros. Entre momentos de pura eletricidade e lapsos que lembraram o roteiro improvisado de um drama em palco, a edição fechou com uma sequência de altos e baixos que merecem ser lidos não apenas como fofocas, mas como sinais de um cenário cultural em transformação.
Em um contexto internacional tenso — com notícias alarmantes vindas do Irã e de outras frentes do Oriente Médio — a produção precisou equilibrar entretenimento e responsabilidade. A aposta de Carlo Conti foi pragmática e quase profética: convocar a jornalista do Tg1 Claudia Cardinaletti para coapresentar e assinar um breve, porém incisivo, ‘explicone’ no início da noite. O gesto funcionou como um reframe: Sanremo deixou por instantes de ser apenas festa para assumir também o papel de palco informativo.
Do ponto de vista estético, a direção de Maurizio Pagnussat jogou todas as cartas na velocidade. Câmeras em movimentos rápidos, cortes abruptos e enquadramentos que pareciam feitos para manter o público — e sobretudo os jornalistas da sala de imprensa, exaustos após uma semana com cerca de três horas de sono por noite — acordados. Essa decisão técnica, contudo, teve seus efeitos colaterais: se, por um lado, injetou ritmo, por outro deixou alguns momentos sem a devida contemplação, como se o espetáculo tivesse pressa de si mesmo.
No capítulo dos Top, houve performances que se sustentaram além do figurino e do efeito de palco. Artistas que conseguiram traduzir memórias e imagens coletivas em canções que ressoaram no público, transformando a arena do Ariston em algo próximo a uma câmara de eco cultural — imagens e sons que reverberam além da noite e do festival. Já nos Flop, registraram-se escolhas de roteiro e de filmagem que diluíram momentos íntimos: um broche notado às pressas, um beijo saffico que só ganhou nitidez via VAR, e pequenos deslizes de edição que transformaram instantes sensíveis em fragmentos confusos.
Sanremo sempre foi um laboratório afetivo: você pode entrar no palco como Papi e sair como cardeal, para usar a expressão popular. Nesta final, o laboratório mostrou suas bancadas bem montadas, mas com algumas placas soltas. A mensagem cultural que fica é dupla — ao mesmo tempo um convite à celebração e um lembrete da fragilidade do ato público em tempos de sobrecarga informativa.
Como observadora do zeitgeist, não vejo nisso apenas um balanço de acertos e erros técnicos. Vejo a final do Sanremo 2026 como um pequeno espelho do grande cenário de 2026: onde o entretenimento tenta (nem sempre com sucesso) acomodar a urgência do mundo real, e onde a estética do espetáculo precisa reaprender a respeitar a pausa e a atenção do público. Se o festival é um roteiro oculto da sociedade, esta edição nos dá pistas sobre nossas prioridades e distrações.
Chiara Lombardi — Espresso Italia





















