Por Chiara Lombardi — A terceira noite do Festival de Sanremo 2026 desembarca como um espelho do nosso tempo: ao mesmo tempo evento televisivo e fenômeno social. Depois do recuo de audiência nas duas primeiras noites, as análises florescem. O crítico Aldo Grasso atribui a queda de audiência a uma fórmula que parece desgastada — excesso de horas de transmissão, muitas canções e um ritmo por vezes irregular que transforma uma oscilação em sensação de colapso.
Nesta noite se apresentam os 15 artistas que não cantaram no segundo dia: a organização mantém a dinâmica de dividir as performances, numa tentativa de renovar o fluxo sem perder a tradição competitiva. A emissora publicou a escala e os horários de saída, mas o que interessa culturalmente é o que essas escolhas de ordenação dizem sobre a lógica do festival — quem ganha a posição de destaque e por quê?
Os condutores da terceira noite são Carlo Conti e Laura Pausini, acompanhados pela presença internacional de Irina Shayk e pelo talento cômico de Ubaldo Pantani. Entre os convidados especiais, brilham nomes com peso no imaginário pop europeu: Eros Ramazzotti, a atriz e imitadora Virginia Raffaele e o ator e comediante Fabio De Luigi. Essas participações articulam veículo e público: a estrela consagrada equilibra a necessidade de prestígio com o apelo à audiência jovem que domina nas redes.
Luca Ferlaino, presidente da Human Data, reforça essa ideia ao definir o evento como “um festival predominantemente social”. Os dados e as conversas online moldam grande parte da percepção pública, transformando números de audiência em ecos culturais e em tendências discutidas nas timelines. No Dopofestival, o vencedor do programa Lol brincou que participar é como “celebrar quatro Réveillons seguidos” — uma metáfora que captura a intensidade e a saturação emocional do evento.
Como analista cultural, proponho que vejamos Sanremo 2026 não apenas como competição musical, mas como um roteiro oculto da sociedade: a curadoria dos shows, a escolha dos momentos de glória e a presença midiática constroem um reframe da realidade italiana contemporânea. O festival funciona como um palco onde memória coletiva, indústria cultural e a semiótica do viral se encontram — ora numa harmonia clássica, ora em contracampo.
Se a audiência titubeia, o festival permanece relevante porque segue capaz de provocar diálogos sobre identidade, memória e mudanças no consumo de entretenimento. A terceira noite será, portanto, um teste adicional: conseguirá recuperar ritmo, ou seguirá evidenciando a necessidade de revisão estrutural? Entre as performances prometidas e os convidados de peso, a noite deve oferecer motivo suficiente para o debate público — e para que o público decida se volta a aceitar o ritmo do velho e conhecido formato ou se exige um novo roteiro.






















