Em um gesto quase cinematográfico que parece um reframe do próprio festival, Stefano De Martino foi oficialmente anunciado como o novo condutor e diretor artístico do Sanremo 2026. O anúncio foi feito em cena, ao vivo, por Conti, que desceu da direção do palco para entregar simbolicamente as chaves do evento a seu sucessor — um momento inédito na história do Festival e da Rai.
Visivelmente emocionado, Stefano De Martino subiu ao palco com a sensação de quem já começa a decifrar o roteiro oculto da próxima edição. Ao receber a mão de Conti pousando em seu peito — “senti qua”, como descreveu o gesto — o novo diretor resumiu o sentimento em poucas palavras: “É um honor vero, un gesto di generosità non scontata che ricorderò per sempre. Voglio ringraziare la Rai, e ora testa bassa e pedalare”. Pediu também, com leveza humana, que o antecessor não desligasse o telefone, um símbolo de continuidade e presença.
Com essa escolha, a Rai concede a De Martino um ano inteiro para preparar a próxima edição — tempo estratégico para compor uma direção artística que, segundo fontes, deverá vir acompanhada por uma equipa de confiança. O movimento corporativo não é apenas uma passagem de bastão: é um investimento temporal para reposicionar o festival no cenário cultural contemporâneo.
Em contraponto, vale lembrar o tom autocrítico que o próprio De Martino usou meses antes, em maio de 2025, quando afirmou que para assumir Sanremo “ci vorrebbe qualche capello bianco in più” — a ideia de que a experiência e o tempo imprimem a medida adequada a um palco dessa magnitude. Agora, essa mesma autoconsciência encontra-se convertida em responsabilidade prática: a promessa de crescer com a tarefa.
Os bastidores que alimentaram os rumores deixaram pistas nos últimos dias. O próprio Conti tinha insinuado o fechamento de um ciclo ao término de seu quinto festival, negando, porém, a possibilidade de permanecer apenas na direção artística. A transferência, portanto, surge como um desenlace quase teatral, mas também fruto de contratos e opções já previstos: De Martino já dispunha de uma cláusula contratual com a Rai que lhe garantia a possibilidade de liderar o festival.
Conti fez questão de traçar um balanço tautológico e afetuoso: deixou o festival “em grandissima salute” e lembrou a trajetória recente, marcada por nomes como Amadeus e Baglioni, e por um trabalho acumulado que elevou a celebração a um crescendo. Os números confirmam essa saúde: a serata delle cover registrou 10.789.000 espectadores, com 65,6% de share — o quarto índice mais alto desde 1995.
Mais do que um anúncio, o momento se lê como um espelho do nosso tempo: a sucessão formaliza uma mudança geracional, mas também propõe uma reflexão sobre o que o festival representa hoje. Sanremo continua a ser um palco de memória coletiva e de construção de narrativas nacionais; a chegada de Stefano De Martino sugere que o roteiro do festival poderá incorporar uma semiótica do viral, mantendo, porém, a reverência por sua tradição.
Para além da emoção e das formalidades contratuais, fica a curiosidade sofisticada: como será o Sanremo reinterpretado por alguém que, ontem, afirmava precisar de alguns fios brancos e hoje segura as rédeas do maior palco musical italiano? A resposta, como todo bom roteiro, será revelada em cenas futuras — e terá, certamente, ecos no mapa cultural europeu.






















