Por Chiara Lombardi — Em uma noite que funcionou como um espelho do nosso tempo, Sal Da Vinci conquistou a vitória na 76ª edição do Festival de Sanremo, confirmando sua presença como voz que atravessa gerações. O artista saiu vitorioso à frente de Sayf e Ditonellapiaga, em um resultado que reverbera tanto no plano musical quanto no simbólico.
Em declarações ao final da competição, Sal Da Vinci refletiu sobre o papel acolhedor da música: “A música não tem etiquetas, é um contenitore meraviglioso onde todos podem caber, a música é nossa maior amiga”. Essa imagem — de um cenário que acolhe múltiplas identidades — funciona como um reframe da própria narrativa do festival, que continua a ser, para a cultura italiana e europeia, um palco de memórias e reinvenções.
Sobre o anúncio de De Martino como novo condutor e diretor artístico do Festival de Sanremo 2027, o vencedor mostrou-se genuinamente feliz: “Grande gioia, gli ho fatto i complimenti, sono felice per lui e sono felice di saperlo felice”. Segundo Sal, houve troca de mensagens entre os dois: “Ci siamo fatti le congratulazioni a vicenda”. A observação mais carregada de significado foi sobre a representação regional: “Esta Napoli finalmente no lugar onde se merece”. É uma frase que aponta para a validação cultural de uma cidade cuja presença no imaginário italiano transcende estereótipos.
Quanto à possibilidade de colaborar no Sanremo do ano que vem, Sal Da Vinci foi diplomático e realista: “Mas agora não penso nisso, eu me desfruto este Carlo que ainda tem o perfume sobre mim e haverá um ano para pensar. Por enquanto, esse é o festival do Stefano e da minha parte todo o apoio possível a Stefano porque é um rapaz que só merece”. A declaração, além de pessoal, sugere uma compreensão do festival como um roteiro coletivo — há protagonistas momentâneos, diretores que encenam visões e artistas que, por sua vez, refletem tendências sociais.
O triunfo de Sal não é só uma vitória individual: é um pequeno gesto de reescrita do mapa cultural italiano. Em uma Europa que constantemente renegocia suas referências, ver Nápoles colocada “no lugar que merece” é também um sinal de como a música popular pode operar como instrumento de reconhecimento e memória. O Festival de Sanremo permanece, assim, como um palco onde a semiótica do viral e a tradição se encontram — e onde cada final é, ao mesmo tempo, um novo começo.
Enquanto a temporada pós-Sanremo se desenrola, resta acompanhar se o novo papel de De Martino reconfigurará a estética do festival e como vozes como a de Sal Da Vinci continuarão a dialogar com o público. Em tempos de fluxos culturais acelerados, há algo confortante em ver artistas que lembram que a música, antes de tudo, agrupa memórias e vem como companhia fiel.






















