Por Chiara Lombardi — Do palco do Ariston sai, sempre, mais do que música: sai um pequeno espelho do nosso tempo. Nesta 76ª edição do Festival de Sanremo, as projeções da casa de apostas Sisal redesenham um mapa de expectativas onde a Campania aparece em destaque — ainda que carregue sobre si o peso de quase três décadas sem erguer o troféu principal.
Segundo os especialistas da Sisal, entre os nomes que mais sobem nas cotações aparece Sal Da Vinci, empatado em quota 9,00 com Tommaso Paradiso como alguns dos favoritos para a vitória. A mesma projeção coloca também Luchè em posição promissora para integrar a cinquina final; chances menores são atribuídas a Samuray Jay. Já Lda, em dupla com Aka 7Even, elegeu-se entre os surpreendentes da competição após garantia de boas colocações na segunda noite.
Os atuais tops de preferência segundo a Sisal ainda incluem nomes como Serena Brancale, o duo Masini-Fedez e Arisa, mas é a ascensão de Sal Da Vinci que chama atenção pela convergência entre aposta e comportamento digital: o artista napolitano foi, nas últimas horas, o mais buscado no YouTube, sinalizando uma explosão de interesse que, nesta era, pode traduzir-se em votos e alcance.
Vale lembrar o histórico: a Campania não triunfa no Festival desde 2000, quando a Piccola Orchestra Avion Travel venceu com “Sentimento” — o último grande êxito regional tinha data ainda mais distante com Massimo Ranieri, vencedor em 1988 com “Perdere l’amore“. São 26 anos sem um vencedor originário da região que mais representa, este ano, o mosaico de vozes no festival.
Em sua apresentação no Ariston, Sal Da Vinci trouxe “Per sempre sì“, uma canção de refrão imediato e carga emotiva explícita: dedicada à esposa Paola, acompanhada por uma história de vida familiar que o próprio artista compartilhou em entrevistas. A performance combinou melodia sentimental com uma coreografia pensada para o impacto visual e viral — um gesto que lembra um juramento, dedos cruzados na frente da boca, seguido do destaque ao anel no dedo anular, curioso elemento de semiótica afetiva pronto para ganhar o circuito do TikTok.
Para a serata dei duetti, Sal convidou Michele Zarrillo para interpretar, juntos, “Cinque giorni“, movimento que reforça a leitura clássica e popular do cantor, fazendo-o transitar entre a tradição napolitana e o palco televisivo que dita tendências.
As projeções da Sisal, portanto, desenham um cenário onde a presença campana é tanto simbólica quanto palpável: há um roteiro oculto que liga memória, região e performance ao potencial de vitória. Se a música é sempre um reflexo, aqui ela aponta para um reframe da nossa atenção cultural — e, talvez, para o desfecho de uma espera de 26 anos.
Continuarei acompanhando as reações nas redes e as movimentações nas odds: no festival, como no cinema, o clímax costuma reservar surpresas.






















