Por Chiara Lombardi — No Festival de Sanremo que se aproxima, o tradicional bouquet musical abre espaço a uma paleta plural: além das ballate, surgem **rap**, **dance**, ritmos latinos, folk, indie, country e até toques de rock. É uma mistura pensada para espelhar as múltiplas faces do público — e para reafirmar aquilo que continua sendo o fio condutor do evento: o amor em suas várias declinações.
Durante a sessão de pré-escuta para a imprensa, o diretor artístico Carlo Conti desenhou o mosaico do palco do Ariston: “Speriamo che possa piacere a tante sfaccettature diverse del pubblico”. Conti, num gesto quase cinematográfico — sentado sobre a mesa do estúdio da Rai, de jaqueta azul e tênis branco, batendo o pé (um compasso de baixo que parece prometer ritmo na noite) — reiterou que, nesta edição, a canção será protagonista: nada de monólogos exaustivos, apenas música. “Saremo è Sanremo”, sintetizou.
O tema do amor domina os textos, mas não de forma única ou previsível: entre romantismo e introspecção, há histórias que viram fábulas ou se transformam em obsessões. Em alguns momentos, as canções desviam para a atualidade — e o festival se torna um pequeno espelho do nosso tempo, capaz de refletir dramas como o de Gaza, assim como a sátira que aponta os defeitos do Belpaese: das enchentes na Ligúria e na Emília às memórias do G8 e até referências à descida em campo de Berlusconi.
Há, também, o gesto de memória institucionalizado por Conti: esta edição será dedicada a Pippo Baudo. Para honrar seu legado, serão produzidos dois especiais de «Sanremo Top» nos sábados 7 e 14 de março — uma ideia que toma emprestado o formato clássico das classificações, agora aceleradas pela instantaneidade das paradas digitais. Conti admite que não haverá um tributo pontual, único, mas que o festival inteiro carregará a influência de Baudo — “ele inventou o tudo e o contrário do tudo” — e que, quando possível, convidados por ele lançados possam ser apresentados em seu nome.
O roteiro emocional da festa também passa pela perda: artistas históricos que partiram este ano, como Ornella Vanoni, Beppe Vessicchio e Tony Dallara, merecem celebrações que estão sendo pensadas. “Ci stiamo pensando — disse Conti — per alcuni sarà un lungo applauso, per altri avremo altri spunti.”
Sanremo 2026 propõe, assim, um reframe da realidade cultural: não é apenas entretenimento, mas um palco onde canções funcionam como pequenos espelhos da sociedade — elas trazem memórias, posicionamentos e, sobretudo, um roteiro oculto das tensões de nosso momento. O desafio, para Carlo Conti, é fazer um bouquet que contente “tutte le sfaccettature”: um festival que conjuga tradição e novidade, sentimentalismo e crônica, palco e mundo.
Num tempo em que as playlists habitam o imediato, Sanremo insiste em ser cerimônia: uma festa coletiva que celebra o amor, lembra seus mestres e arrisca novos caminhos sonoros — como um filme clássico revisitado por uma câmera contemporânea.






















