Por Chiara Lombardi — O que faltava ao Sanremo 2026? A resposta parece óbvia após a quarta noite: nada. Quando a energia do festival mais longevo da Itália explode, ela contagia tudo e todos. Na quarta serata, dedicada às cover, a mudança de ritmo foi nítida: artistas se entregaram sem reservas, como se cada performance fosse um pequeno manifesto de audácia — o reframe do festival em movimento.
A noite começou — e terminou — com uma eletricidade que atravessou o palco do Ariston. Fora, no tapete inicial, uma celebração já prenunciava o clima: Laura Pausini irrompeu, cantou, caminhou entre o público e trouxe à sala uma festa que ninguém esqueceu. Era o tipo de entrada que transforma um espetáculo em ritual coletivo.
Houve, igualmente, espaço para a épica do passado e o sopro do novo. Em uma das cenas mais deliciosamente anacrônicas e bem-sucedidas da noite, Cristina D’Avena retornou como uma heroína dos anos 80: vestida de preto e renda, ela trouxe o hino televisivo Occhi di gatto com uma roupagem que virou homenagem e reinterpretação. No final da sigla cult, o palco foi literalmente ‘bambolizado’ quando a única banda feminina em competição, as Bambole di Pezza, arremataram com um choque sonoro — um trecho de Whole Lotta Love dos Led Zeppelin — imprimindo à nostalgia um corte de rock britânico.
O efeito foi o de um espelho do nosso tempo: memórias reativadas e remodeladas, uma semiótica do viral que reconstrói o passado para dar sentido ao presente.
Momento íntimo e inesquecível: a dupla de Morandi. No palco, Gianni e seu filho Pietro Morandi (Tredici Pietro) protagonizaram um encontro que parecia saído do roteiro de um filme familiar — simples na forma, colossal na emoção. “Subir naquele palco ao lado do meu filho foi diferente de tudo que vivi”, declarou Gianni, depois de dividir Vita com Pietro, Galeffi, Fudasca & Band. A cena teve o tom de uma memória que se escreve ao vivo.
E houve também a consagração da intérprete das noites de cover: Ditonellapiaga. Em dueto com TonyPitony, ela interpretou The Lady is a Tramp de Frank Sinatra, agradeceu a diretora do arranjo Carolina Bubbico e enalteceu a orquestra. Nos bastidores, confessou a Rainews.it: “Trabalhei muito”. Ao receber o prêmio no palco, o gesto foi de reconhecimento mútuo entre artista e público — o momento em que a indústria e a comunidade se tocam.
Foi, em suma, uma noite onde o antigo e o contemporâneo se olharam e, sem cerimônia, dançaram. Sanremo mostrou que seu roteiro oculto continua vigente: transformações, reencontros e pequenas revoluções sonoras. A quarta serata foi um mosaico de afetos e audácias, um verdadeiro cenário de transformação que confirma: aqui, o entretenimento se faz espelho cultural.






















