Por Chiara Lombardi — De São Paulo para o palco europeu do Festival: a Sanremo 2026 voltou a ser, ontem à noite, um espelho do nosso tempo. Segundo a Total Audience divulgada pela Auditel, a audiência da quarta noite, dedicada a duetos e covers, alcançou 10,8 milhões de espectadores, com um share de 65,6%.
Embora números dessa magnitude continuem a confirmar o festival como um dos grandes eventos televisivos do calendário europeu, é notável a leitura histórica: no ano passado a mesma noite havia registrado 13,6 milhões de espectadores e 70,8% de share. A comparação não é apenas estatística; funciona como um reframe da nossa percepção coletiva do entretenimento ao vivo — um roteiro oculto que revela como hábitos, concorrência e expectativas mudam de edição para edição.
Voltando no tempo para traçar o eco cultural do fenômeno: em 2024 a quarta noite bateu recorde histórico desde 1987, com 11,9 milhões de espectadores e 67,8% de share. Nesse ano, o segmento Sanremo Start (20h45–21h19) atraiu 12.824.000 espectadores (52,17% de share). A primeira parte do espetáculo chegou a 15.531.000 espectadores (65,05%) e a segunda parte, entre 23h38 e 2h59, fechou com 8.398.000 espectadores (73,23%).
Recapitulando edições anteriores para entender a trajetória: em 2023 a noite de covers e duelos teve 11.121.000 espectadores (66,5% de share), com a parte inicial (21h25–23h41) atraindo 15.046.000 (65,2%) e a noite avançando para 7.041.000 espectadores (69,7%) na segunda parte. Em 2022 a média foi de 11.378.000 espectadores (60,5% de share), com a primeira parte a 14.731.000 (59,2%) e a segunda a 7.543.000 (63,5%).
Quando ampliamos o recorte até 2021 e 2020, quando Amadeus assumiu pela primeira vez, percebemos outros movimentos: 2021 teve média de 7.880.000 espectadores (44,7% de share), enquanto 2020 registrou 9.504.000 (53,3% de share). Essas variações não falam apenas de nomes e atrações; contam a história de plateias que se reconfiguram entre plataformas, hábitos de consumo e a própria duração do evento.
Para contextualizar com outros condutores, a comparação com as edições de Carlo Conti também é reveladora: 2015 fechou com 9.869.000 espectadores (45,6% de share), 2016 com 10.053.000 (46,1%) e 2017 com 9.757.000 (45,5%). É uma memória estatística que nos ajuda a ler o festival como um organismo vivo — parte espetáculo, parte arquivo social.
Como analista cultural, gosto de pensar nesses números como frames de um filme coletivo: cada edição de Sanremo 2026 é um take que nos mostra onde estamos, o que nos emociona e o que estamos dispostos a assistir juntos. A queda em relação a 2025 nos convida a investigar além dos dados brutos — quem eram os artistas convidados? Qual foi o mix entre tradição e risco? E sobretudo: que narrativa estamos exigindo das grandes noites televisivas?
Enquanto a discussão segue nos bastidores e nas redes, o festival mantém seu papel de refletor cultural. A noite das covers reafirma que a música popular continua sendo a linguagem com a qual sociedades compõem sua própria memória.






















