Por Chiara Lombardi, Espresso Italia — A quarta noite do Festival de Sanremo 2026 foi acompanhada por 10.789.000 espectadores médios, com um share de 65,6%. Os números, divulgados pelas audiências oficiais, confirmam uma queda em relação ao mesmo momento do ano anterior, quando a quarta noite havia alcançado média de 13.575.000 espectadores e 70,8% de share.
Se olharmos com lupa temporal, a transmissão dividida em duas partes mostrou comportamentos distintos do público: a primeira parte, exibida entre as 21h45 e as 23h37, atingiu 14.039.000 espectadores médios e 64,4% de share. A segunda parte, que foi das 23h42 à 1h41, reuniu 7.519.000 espectadores, com um share de 67,9%.
Em comparação, a edição anterior registrou números superiores em ambas as metades: a primeira parte, das 21h15 às 23h29, somou 16.700.000 espectadores e 69,2% de share; a segunda parte, entre 23h35 e 1h29, marcou 9.900.000 espectadores e 74,1%.
Esses dados nos convidam a uma análise que vai além da simples cronologia do evento. Como observadora do zeitgeist, vejo nesses índices um reflexo — quase um espelho — das mudanças nos hábitos de consumo cultural: a concorrência com plataformas de streaming, o consumo fragmentado por clips e highlights nas redes sociais, e a crescente preferência por conteúdos que podem ser revisitados on demand. O Sanremo permanece um fenômeno de massa, mas seu roteiro de audiência evidencia um reframe da atenção coletiva.
Há também aspectos técnicos e de programação que não podem ser ignorados: deslocamentos nos horários de início e término, formatos de bloco e a própria dinâmica musical e de apresentação influenciam quando o público decide ligar a TV ou abrir um aplicativo. A diferença nos horários entre as edições (por exemplo, início às 21h15 no ano anterior versus 21h45 nesta edição) tende a alterar as curvas de audiência da noite.
Nesta quarta noite, a oscilação entre a primeira e a segunda parte mostra um padrão conhecido: mais espectadores no pico inicial, seguido por queda no acumulado noturno, porém com percentual de share que se mantém competitivo na madrugada. Apesar da redução numérica, o festival conserva sua posição como evento central no calendário cultural europeu — uma plataforma que ainda molda conversas e memórias coletivas.
Como analista cultural, proponho que não enxerguemos apenas a queda como perda, mas como sinal de transformação. O desafio do Festival de Sanremo hoje é reinterpretar seu papel: continuar a ser o grande palco televisivo, sem perder a oportunidade de dialogar com a instantaneidade digital e com públicos acostumados a modular sua atenção entre vários simultâneos cenários de consumo.
Em resumo: 10.789.000 espectadores e 65,6% de share consolidam a quarta noite de Sanremo 2026 como um evento de massa — porém em meio a um cenário em que o roteiro oculto da sociedade redefine o que significa “audiência” no século XXI.






















