Por Chiara Lombardi — No cenário sempre cuidadoso e simbólico do Festival de Sanremo, onde cada gesto vira frame de um roteiro coletivo, houve na noite de sexta-feira 27 de fevereiro de 2026 um momento que ressoou para além da música: Gianluca Grignani, convidado da serata delle cover, aproveitou a devolução dos aplausos para soltar uma alfinetada dirigida a Laura Pausini.
Em dueto com o rapper Luché, Grignani interpretou o tema “Falco a metà”, numa performance que misturou tradição e reconfigurações contemporâneas — exatamente o tipo de mise-en-scène que transforma um festival numa espécie de espelho do nosso tempo. Ao término da apresentação, como manda a etiqueta do Palco Ariston, Carlo Conti entregou-lhe os tradicionais buquês de flores. Mas Grignani já tinha a réplica pronta: “Tem também o número da Laura Pausini? Assim eu posso ligar…” (C’è anche il numero di Laura Pausini? Così la posso chiamare…).
A frase, aparentemente leve, ecoou como um pequeno gesto ritualizado: um sassolino tirado do sapato à vista de todos. O comentário faz referência direta à polêmica que envolveu os dois artistas no ano passado, quando Laura Pausini gravou uma versão de “La mia storia tra le dita” — canção originalmente assinada por Grignani — e não teria destacado adequadamente a autoria, além de alterar versos que, para o compositor, mudaram o sentido da obra. Na sequência, Grignani manifestou seu desagrado pelas redes sociais, reacendendo um debate sobre direitos autorais, interpretação e preservação da intenção do autor.
Além do episódio em si, o que interessa aqui é o que esse tipo de incidente revela sobre o zeitgeist cultural: por trás do suposto flerte com a polêmica, há uma narrativa sobre autoria, memória e o lugar do intérprete na redefinição de um repertório coletivo. O micro-gesto de Grignani no palco funciona como um refrão crítico — uma observação sobre como canções podem ser reescritas pelo tempo, pela circulação e pelo gesto performático de quem as reinterpreta.
Num festival que sempre se apresentou como um palco de consensos e conflitos controlados, a troca de farpas tem o valor simbólico de um close dramático: chama atenção, suscita comentários e, sobretudo, força a audiência a reconsiderar as camadas por trás do espetáculo. Não foi um ataque gratuito, mas uma lembrança pública de que, na música como no cinema, os créditos no roteiro importam — e o diálogo entre autor e intérprete continua sendo um terreno fértil de disputas e reinterpretações.
Resta ver se haverá resposta pública de Laura Pausini ou se o episódio seguirá como um gesto isolado numa noite cheia de covers e homenagens. Enquanto isso, o público e a crítica assistem, atentos, ao pequeno roteiro oculto que se desenha entre notas, aplausos e comentários: o festival segue sendo, em sua forma mais pura, um espelho cultural onde se reflete e se negocia o presente.






















