Em uma noite que buscava leveza, Sanremo 2026 encontrou seu espelho cômico no palco do Ariston. Nino Frassica, com parrucca e timing impecável, inaugurou seu ‘Festivallo’ como quem reescreve, em tom de farsa cult, o roteiro do entretenimento. A entrada remeteu a um número de cinema popular — um artífice do riso que transforma anedota em diagnóstico social.
Logo no começo, Frassica citou rostos do festival: ‘A gente tá todo mundo, vi até a Bianca Balti. E o Malgioglio? Ci sta vedendo dall’aldilà… dello schermo’. A frase, ao mesmo tempo autoreferencial e metalinguística, estabeleceu o tom: não se trata apenas de piada, mas de uma pequena liturgia do espetáculo.
O coração do número foi a brincadeira com as ‘dez regras do verdadeiro condutor‘, batizada por ele de ‘Decamerone’. Cada regra virou um esboço teatral, um espelho do que a TV exige do apresentador e, por extensão, do que a sociedade espera de suas figuras públicas. No dueto com o veterano Conti, Frassica inaugura a lista com a primeira: ‘Deve ser vivo’. Em seguida, ironiza idade, reputação e a hipocrisia do star system: ‘Deve ter no mínimo 3 anos e no máximo 133’ — uma piada que joga com a temporalidade do ídolo.
O diálogo entre os dois ampliou a cena para uma comédia de costumes: a exigência de ‘federino limpo’ e, paradoxalmente, a concessão de exceções; a presença de amantes secretas como atributo quase folclórico do apresentador; a habilidade em distinguir um microfone de uma enguia — imagens que atravessam o gag e tornam-se metáforas da confusão entre espetáculo e realidade.
Frassica não poupou nem a postura: o ‘verdadeiro apresentador’ deve se apresentar impecável, bem penteado, barbeado, com estômago vazio, sem tocar-se nem coçar-se. A lista inclui conexões sociais — ser ‘ammanicato’, ter amigos na política, no Vaticano, na guarda florestal, na bocciofila — como se o poder do apresentador nascesse mais de redes e protocolos do que de talento puro. É um pequeno tratado irônico sobre autoridade mediática: o Decamerone se transforma em um manual de sobrevivência ao vivo.
O gesto final foi tão risonho quanto pontual: Frassica apontou que o bom apresentador deve também ser diretor artístico e ‘recusar Jalisse e Albano’ — uma piada que remete aos déjà-vus do Festival e à necessidade de renovar repertórios. E, como num loop referencial, pediu que fosse repetido o código ‘3, Lucio Corsi…’, ecoando o ano anterior e sublinhando a ideia de serialidade no espetáculo televisivo.
Mais do que risadas, o que Frassica ofereceu foi um reframe: o que parece uma sequência de gags é, na verdade, um comentário ácido sobre as expectativas e contradições do showbiz italiano. Como observadora do zeitgeist, é impossível não perceber nesse número um pequeno espelho do nosso tempo — o riso funciona como catarse e como lupa. Se o Festival é palco, o ‘Decamerone’ de Frassica é o roteiro oculto que nos lembra que, por trás da festa, pulsa um teatro social pronto a ser desconstruído entre uma piada e outra.






















