Foram 9,6 milhões de telespectadores, correspondendo a 58% de share, a média de público que acompanhou na Rai1 a primeira noite do Festival de Sanremo 2026, apresentado por Carlo Conti. Os números, divulgados em termos de total audience, confirmam um início sólido — embora abaixo dos índices recordes verificados no ano anterior.
No mesmo período em 2025, a primeira noite do festival tivera audiência média de 12,63 milhões de espectadores, com um 65,3% de share. A comparação imediata evidencia uma queda percentual relevante, que abre espaço para reflexões sobre transformações do consumo televisivo e o papel do evento como espelho cultural.
Como observadora do zeitgeist, costumo dizer que festivais como Sanremo funcionam como um espelho do nosso tempo: não apenas um palco para canções, mas um roteiro oculto da sociedade que revela preferências, tensões e modos de narrar a identidade nacional. A diminuição no número absoluto e no share não anula a importância simbólica do festival, mas indica um cenário em mutação.
Alguns fatores explicam essa variação. A fragmentação das plataformas — com espectadores migrando para serviços de streaming e consumo digital imediato — tem impacto direto nos ratings tradicionais. Além disso, concorrência editorial nas redes sociais e formatos alternativos de entretenimento diluem a concentração de audiência que antes era quase garantida por eventos televisivos de grande porte.
Também importa considerar o elenco e a direção artística da edição: linhas de repertório, convidados, momentos cênicos e o próprio tom do apresentador moldam a recepção. Carlo Conti, figura consolidada do entretenimento italiano, traz consigo uma assinatura que atrai público fiel, mas talvez não recupere necessariamente os picos de uma temporada a outra — especialmente se o público mais jovem buscar identificação em narrativas diferentes.
Do ponto de vista cultural, Sanremo continua sendo um evento de referência. Mesmo com redução de audiência, o festival mantém um poder de agenda: canções vencedoras, discursos e performances se tornam tópicos de debate, viralizam e reconfiguram tendências musicais. O que mudou foi o ecossistema que recebe e repercute esse conteúdo.
Em termos práticos, a queda de 7,3 pontos percentuais no share em relação a 2025 deve ser lida menos como um veredito sobre a qualidade da noite e mais como indicador de um reframe cultural — uma paisagem onde o grande evento televisivo convive com uma multiplicidade de espelhos: telas menores, feeds personalizados e comunidades online.
Sanremo 2026 estreou com números robustos para os padrões contemporâneos, mas também com a clara evidência de que o roteiro da audiência está se reescrevendo. Cabe à televisão ancestral e às novas plataformas dialogarem, resignificando o festival para próximas gerações sem perder sua aura de ritual nacional.






















