Falta um mês para a grande estreia, mas o Sanremo 2026 já respira nos bastidores. Em Roma, começaram as provas com a orquestra, um ritual obrigatório que antecipa a semana do Festival e submete as canções ao primeiro exame real antes do palco do Ariston.
Entre as Nuove Proposte, foi Mazzariello quem abriu a maratona de ensaios. Apresentando pela primeira vez a canção Manifestazione d’amore, ele enfrentou o teste decisivo: a composição, agora com arranjo definitivo, ouviu os músicos, ajustou tonalidades e mediu sua força num ambiente sem plateia e sem redes sociais — apenas artistas, instrumentistas, maestros e equipe técnica.
«Depois de provar, me tornei fã da minha própria canção», disse ele aos microfones da redação. A frase, simples e sincera, revela o momento em que um autor reconhece seu trabalho no espelho ampliado do trabalho coletivo: a voz encontra o arranjo e o arranjo devolve sentido, como num pequeno reframe do roteiro artístico pessoal.
Essas sessões fechadas — sem público e sem transmissão online — são o laboratório onde se testam os impactos iniciais das músicas. É aqui que se decide se uma ponte precisa ser alongada, se a orquestra pede uma respiração a mais, ou se a tonalidade exige outra chave para resistir ao palco do Festival. O cuidado técnico revela o peso simbólico do evento: não é apenas entretenimento; é a cena onde se projeta um eco cultural, a fotografia sonora de um momento social.
O Sanremo 2026 já se manifesta fora do Teatro: matérias, comentários e expectativas circulam na imprensa, na televisão e nas redes — ainda que as provas do momento sejam herméticas. Entre 24 e 28 de fevereiro, o festival voltará ao centro, mas este mês que antecede a competição funciona como escrita e revisão do roteiro oculto que chegará à plateia.
Do ponto de vista cultural, a rotina das provas simboliza algo maior: o atrito entre intimidade criativa e a exposição massiva do espetáculo. Em Roma, longe do brilho final do Ariston, os artistas trabalham a fricção necessária para transformar canções em performances resilientes. É um ensaio que ensina sobre memória coletiva — as melodias que sobrevivem ao ensaio tendem a ecoar depois no cenário de transformação social que o Festival representa.
Para o público e para os observadores do zeitgeist, acompanhar esses movimentos é reconhecer que cada edição de Sanremo reescreve, ainda que sutilmente, a cartografia sonora do país e suas conversas com a Europa. As provas com a orquestra são, portanto, mais que técnica: funcionam como espelho do nosso tempo, palco de pequenas decisões que podem alterar o destino de uma canção.
Enquanto a contagem regressiva avança, restam dias de espera e expectativa. O backstage já está em movimento; o Festival, embora distante fisicamente, já se materializa como promessa e teste. E nós assistimos, com curiosidade sofisticada, ao surgimento das formas que, em poucas semanas, estarão diante de toda a Itália.






















