Por Chiara Lombardi — Na noite de covers do Sanremo 2026, exibida na sexta-feira, 27 de fevereiro, Elettra Lamborghini viveu o contraste entre o êxtase do palco e a amargura da classificação: a cantora não entrou na top 10 e não escondeu sua decepção.
Sem perder a aposta pelo espetáculo, Elettra Lamborghini dividiu o palco do Teatro dell’Ariston com as Las Ketchup para apresentar a icônica geração‑hit ‘Aserejé’. Foi o primeiro dueto da serata delle cover e um número que incendiou a plateia: as quatro artistas, vestidas com figurinos inspirados nos anos 1950, reencenaram uma pista que mais parecia uma disco dos anos 2000 — um jogo de temporalidades que virou performance e nostalgia.
Mesmo com a resposta calorosa do público, o resultado oficial da noite não favoreceu a cantora. Em declarações publicadas após o programa, Elettra deixou clara a frustração: «La top 10 me la meritavo, lo dico sinceramente». Em paralelo, nas redes sociais, a artista respondeu a seguidores sobre sua colocação e sobre o chamado Fantasanremo, expressão que reúne apostas e fantasias dos fãs sobre pontuações e performances. À pergunta de um usuário que defendia uma posição mais alta — inclusive por quem a tem no Fantasanremo “perché sta regalando gioie” — Elettra replicou com ironia e desalento: “Ma veramente raga sto pure a fa tutto il fantasanremo che delusione”.
Há algo de simbólico nesse episódio para além da disputa por posições: a apresentação funcionou como um espelho do nosso tempo, onde a cultura pop recicla e reinterpreta memórias coletivas, transformando a performance em uma espécie de arquivo afetivo. O número com as Las Ketchup foi, em si, um pequeno manifesto sobre a economia da nostalgia — e a reação da cantora revela como, no circuito midiático atual, o afeto do público nem sempre se traduz em reconhecimento formal.
Do ponto de vista estético, a escolha dos figurinos e a reconfiguração do palco em uma pista de dança dos anos 2000 são uma assinatura consciente: a cultura visual do espetáculo reproduz e reimagina arquétipos, fazendo do Ariston um cenário de transformação onde o passado encontra o presente em ritmo pop. Politicamente, a frustração de Elettra Lamborghini também ilustra a tensão entre projeção de artista e avaliação coletiva, um pequeno roteiro oculto sobre como o julgamento público opera hoje.
Se a classificação não acompanhou o calor da plateia, a performance permanece como momento significativo da edição: um encontro entre a ironia retro das Las Ketchup e a presença pop de Elettra, que — mesmo fora da top 10 — reafirmou sua capacidade de dominar a narrativa do festival. Na era do viral, o palco é ao mesmo tempo espelho e megafone; e esta noite em Sanremo lembra que, por vezes, a memória coletiva premia o gesto antes de premiar a posição.
Seguiremos observando como esse episódio reverberará nas votações seguintes e no debate público: afinal, no grande arquivo do festival, cada performance é um frame que alimenta o discurso cultural sobre música, imagem e tempo.






















