Na primeira noite no palco do Ariston, venceu a elegância retrô: estrass, preto e detalhes preciosos dominaram, desenhando um cenário que mais parecia um set de cinema clássico do que um festival pop contemporâneo. Entre acertos e exageros, a passarela sanremense mostrou que a moda continua sendo o espelho do nosso tempo — uma mise-en-scène onde cada escolha corporal conta um capítulo do roteiro oculto da sociedade.
Carlo Conti, anfitrião e diretor artístico, optou pela autoridade do clássico: smoking duplo-breasted azul noite com revers de cetim, assinado por Stefano Ricci. Um look de plateia e palco que não precisa gritar para se impor. Voto: 8.
Laura Pausini, coapresentadora, caminhou entre a tradição e a modernidade: primeiro, um vestido sereia de veludo preto com corselet em coração e rastro, assinado por Giorgio Armani, complementado por um colar de diamantes e tanzanita da Pomellato — elegância à prova de tempo. Para o segundo ato, um vestido cinza bordado com mantella, e depois um terceiro look: um vestido azul Klein com mangas longas, recortes nos ombros e cristais. Apesar da imponência, o terceiro visual não conseguiu rasgar a tela; ainda assim, sua presença no mesmo palco que a consagrou em 1993 é um momento de continuidade afetiva. Voto: 8.
Ditonellapiaga, primeira concorrente, parece ter perdido o memo sobre a passagem da barbiemania: um vestido de saia balão rosa com corselet preto, acompanhado de uma t-shirt com a inscrição “Che fastidio!” — referência direta ao single — e décolleté com laço rosa que penderam para o excessivamente infantil. A proposta pop era clara, mas o equilíbrio entre conceito e maturidade falhou. Voto: 5,5.
Michele Bravi em Antonio Marras mostrou como a sutileza retro pode conquistar: completo xadrez de lã, calça ampla e camisa amarrada no colo, com um ar de crooner moderno. Um acerto sem esforço que fala de referências bem costuradas. Voto: 7.
Sayf estreante no Ariston, desceu as escadas com um terno risca-de-giz marrom, vibe gangster, e gravata de padrão piton — uma miscelânea que soou deslocada no tapete vermelho mais tradicional da Itália. Voto: 4.
Mara Sattei escolheu o drama com um vestido Vivienne Westwood de saia balão, mais curto à frente e longo atrás, com corselet de decote em coração: uma homenagem patente ao vintage que dialoga bem com o espírito do festival. Voto: 6+.
Dargen D’Amico levou literalidade conceitual ao extremo: óculos escuros tipo máscara, estilo “mosca”, e um conjunto kimono double-breasted da Mordecai que reproduzia o parquet de sua casa — uma imagem que tentou ser performance e acabou soando hermética. Há quem admire a tentativa de linguagem; aqui, a escolha não se comunicou. Voto: 4.
Can Yaman, convidado, mostrou torso à mostra sob um traje preto com camisa aberta até o meio do peito, seguido por trocas que incluíram um smoking branco. A aposta no apelo físico foi óbvia, mas beirou o excesso e o pastiche. Voto: 5,5.
No centro do palco, como se estivéssemos diante de uma cena cuidadosamente coreografada, surge Arisa — a mais icônica da noite. A artista não só entregou uma performance de tirar os sentidos, como carregou um figurino de elegância rara, reminiscente do glamour clássico que transforma uma apresentação em momento de cinema. Sua presença cênica e escolha estética reafirmaram o poder da figura pop que transcende a canção: é imagem, memória e empatia. Voto: 9,5.
Em síntese, a primeira noite de Sanremo 2026 foi um desfile de referências retrô e escolhas que conversam com uma certa nostalgia contemporânea. O preto continua sendo a língua da autoridade; o branco e os cortes afiados tentam reescrever as formalidades; e os acessórios — quando bem dosados — elevam a narrativa. Alguns erraram ao priorizar o conceito em detrimento da comunicação, outros acertaram ao fazer do visual uma extensão coerente do palco e da canção.
Como analista cultural, vejo neste episódio do festival um eco cultural: a moda em Sanremo não é só vaidade, é um reframing da memória coletiva. Cada vestido, cada rastro e cada escolha de styling é uma legenda silenciosa do que queremos celebrar — ou rejeitar — como sociedade. E, como em todo bom roteiro, o que brilha é o que consegue dizer algo além do look: o que toca.






















