Sanremo 2026 acelera rumo à reta final com uma quarta noite que promete ser um espelho do nosso tempo: mistura de viralidade, memória musical e pequenos choques culturais. Na conferência de imprensa sobre a quarta serata, Carlo Conti adiantou que a noite será dedicada a duetos e covers — alguns esperados, outros deliciosamente improváveis.
Conti celebrou os números, explicando que o festival, após uma largada morosa, recuperou audiência: a primeira serata perdeu três milhões de telespettadores em relação ao ano anterior, a seconda 2,6 milhões, enquanto a terza limou o gap para 1,2 milhões. O dado que rouba a cena é o share: 60,6% para o Festival de 2026, o melhor desde 1990 (época de Johnny Dorelli e Gabriella Carlucci), e ligeiramente acima do 60,5% registrado na terceira serata de 1995, primeiro ano do festival em cinco noites. É um indicador que confirma a capacidade do evento de funcionar como um roteiro coletivo — uma narrativa que reúne gerações diante da televisão.
A estrutura da quarta serata foi detalhada com nomes que misturam o pop contemporâneo e a memória da canção italiana. Entre os pares anunciados estão Ditonellapiaga com Tony Pitony — aposta óbvia para viralizar nas redes — e o encontro entre Dargen D’Amico e Pupo, uma colisão de universos musicais e estéticos. Haverá ainda Fulminacci ao lado de Francesca Fagnani na releitura de “Parole, parole” de Mina, um gesto autorreflexivo sobre como as canções clássicas continuam a modular nossa linguagem afetiva.
De volta ao palco também está Belén, ícone já quase mitológico do Ariston, que dividirá a cena com Samuray Jay. E, em um tom que mistura recuperação e renovação, surge o retorno de Bianca Balti: após um ano em que se apresentou calva — gesto que tocou o público pela honestidade — agora mostra cabelos crescidos, mas traz uma fala que permanece crua e verdadeira. Balti descreveu o último ano como o mais difícil de sua vida: “Carlo disse que esta é uma festa, eu não vou a festas, sou um pouco snob, mas neste caso estou felicíssima de participar”, disse. Ela explicou que, após a quimioterapia, enfrentou o luto da mulher que era antes — “um luto de uma vida e de uma despreocupação que não voltarão”.
O festival também convoca figuras que raramente cabem apenas no palco musical. Roberto Vannacci, ex-general e ex-vice-secretário da Lega, agora líder do Movimento Futuro Nazionale, confirmou presença na plateia: “Fui convidado e estarei lá”, antecipou.
Não faltaram picos de polêmica: o passeio de Giulio Rapetti, em arte Mogol, de Sanremo a Roma em um helicóptero dos Vigili del Fuoco suscitou críticas que ele preferiu responder com gratidão institucional. Em tom conciliador, Mogol afirmou que o trajeto foi “muito bem”, elogiando os bombeiros como “pessoas esplêndidas, maravilhosas” e lembrando que merecem agradecimento de todos. O episódio ressalta como o festival tende a ampliar debates públicos — do entretenimento à responsabilidade simbólica.
Mais do que uma lista de presenças e números, a conferência de imprensa desenha um Sanremo que se apresenta como um reframe da realidade: os duetos funcionam como espelhos e contrastes, as covers ressignificam repertórios e as presenças — entre celebridades, ex-políticos e sobreviventes — registram uma temporada em que a canção popular vira arquivo e palco de reflexão. Em outras palavras, o festival continua a escrever o roteiro oculto da sociedade italiana, noite após noite.
Para a quarta serata, então, espere a mistura precisa entre espetáculo e sedimentação cultural: performances que querem viralizar, momentos íntimos que convidam à empatia e uma audiência que, em números, confirma o valor coletivo do evento. Sanremo 2026 segue, assim, como um cenário de transformação e memória.






















