Por Chiara Lombardi — Ao final de uma noite em que a música se tornou espelho do nosso tempo, Sanremo 2026 coroou um vencedor cuja vitória ressoa como um afeto popular: Sal Da Vinci. O artista, emocionado, definiu o momento com uma frase simples e poderosa — “Questo è il premio del popolo” — e sua família explodiu em um Mamma mia coletivo nos bastidores. O triunfo parecia improvável até pouco antes, e por isso a comemoração teve sabor de redenção e pertença.
Ao mesmo tempo, a notícia de que De Martino, nascido e forjado na latência cultural de Napoli, será o mestre de cerimônias no próximo ano reforça o caráter simbólico do festival: uma vocação — quase um roteiro oculto — de unir o país, de ponta a ponta do stivale, também pelo idioma, pelos sotaques e pelas memórias que cada região traz ao palco.
O resultado artístico e emocional do festival manteve uma tessitura familiar. Entre incursões rock e experimentos contemporâneos, permaneceu a sensação de um espetáculo que casa tradição, cultura, orgulho, ironia e atualidade — uma narrativa plural onde o familiar ocupa lugar de destaque. Pais na plateia e filhos no palco, dedicações que nascem em casa e chegam em direto, artistas que convocam suas raízes e afetam o público com gestos íntimos: este foi, em muitos aspectos, o Festival da família.
Na geografia humana do evento havia toda a Itália: da Sicília à Lombardia, com paradas em Florença e Roma. O segundo lugar de Sayf e a quarta posição de Arisa desenham um mosaico regional; as vozes genovesas de Ditonellapiaga, o dueto que aproximou Milão e Florença (Fedez e Masini) e a sagaz comicidade do siciliano Frassica completam o painel. Cada presença, uma citação da complexidade cultural italiana e seu repertório de afetos.
Intenso, visivelmente emocionado, Sal Da Vinci pulou, chorou e declarou ter vencido por e para o povo. A repercussão trouxe ainda um toque de cinema: Carlo Verdone, em um post intitulado “Oggi Troppo forte sei tu” — evocando seu clássico — lembrou que Sal atuou em Troppo forte (1986). Verdone recordou o episódio do casting, quando um jovem Sal, acompanhado do pai Mario — cantor e ator de sceneggiate — chamou atenção pela presença e profissionalismo, e recebeu então o abraço público do cineasta.
Mais do que uma cerimônia de premiação, o 76° Festival de Sanremo consolidou-se como um palco de afetos públicos: mães que ganham luz ao participarem do jogo do Fantasanremo, rappers que exibem duras fachadas enquanto revelam corações macios, veteranos dos anos 80 que voltam a brilhar e famílias inteiras que ocupam a narrativa televisiva. É como se o festival tivesse reescrito, por uma semana, a definição do que é público e o que é íntimo.
Se o entretenimento nunca é apenas diversão, Sanremo 2026 foi, sobretudo, um reframe da realidade cultural italiana: um eco que enlouquece pela capacidade de transformar histórias pessoais em afirmações coletivas. Sal Da Vinci, com Per Sempre Sì, não ganhou apenas um prêmio — ganhou uma história que atravessa gerações. E enquanto De Martino já se anuncia para o próximo ato, resta a sensação de que o festival segue sendo um roteiro vivo da identidade italiana, um espelho onde se lêem nossas tensões e afetos mais sinceros.






















