Por Chiara Lombardi — Em entrevista ao Rtl 102.5 durante o programa ‘Giletti 102.5’, Carlo Conti voltou a colocar o Festival de Sanremo no centro de uma discussão sobre autonomia artística e responsabilidade pública. Com o tom calibrado de quem conhece os bastidores do entretenimento europeu, Conti afirmou com veemência que a decisão de convidar o comediante Andrea Pucci foi inteiramente sua e que não houve qualquer interferência do governo.
‘Todos nós que fizemos a direção artística temos absoluta carta branca. Ninguém se permite interferir. Se fizemos erros, se eu fiz erros, são somente culpa minha. Ninguém me diz quem tomar ou quem não tomar, e eu digo isto com grande força. Isto vale tanto para edições anteriores com outros governos como para esta com o atual’, disse Conti.
Traduzindo essa defesa institucional para o jargão da cultura pop: Conti traça um limite claro entre o palco — espaço simbólico da criação — e a esfera do poder político. Ele enfatiza que a escolha por Pucci não foi aleatória: ‘É alguém que foi premiado na Arena de Verona pelos incassi, esteve em incontáveis programas, passou pelo Zelig e nunca houve problemas’.
O diretor também lembrou que o Festival frequentemente se transforma num ‘espelho do nosso tempo’, atraindo debates e críticas que, por vezes, ofuscam o que deveria ser o foco primordial: as canções. ‘O Festival de Sanremo está no olho do ciclone e todos acabam sendo puxados pela gola. É uma oportunidade para falar ou falar mal. Espero que com o início do Festival volte-se a falar apenas das músicas’, declarou.
Em tom reflexivo e com a elegância de quem observa um roteiro cultural em movimento, Conti revelou ainda detalhes da edição: ‘Toda a edição deste ano será dedicada a Pippo Baudo e vocês vão perceber isso já na vinheta’. Ao comentar sua trajetória, confessou que este é o seu quinto Festival — ‘número perfeito para parar’ — sugerindo que ciclos criativos também merecem renovação.
Conti recordou a alternância na direção artística dos últimos 12 anos — dividida entre ele, Amadeus e Claudio Baglioni — e defendeu o valor da mudança como forma de trazer ‘novas ideias, nova linfa’. A visão se alinha a uma narrativa mais ampla: a música italiana vive um momento de efervescência e afirmação global. ‘Há 10-12 anos, na parada de sucessos nacional, havia 8 estrangeiras e 2-3 italianas; hoje o fim de ano está dominado por canções italianas’, sublinhou.
Outros pontos confirmados por Conti reforçam a importância institucional do Festival. Pela primeira vez, os protagonistas do evento — os cantores em competição, o próprio Conti e Laura Pausini — serão recebidos pelo presidente Sergio Mattarella, um reconhecimento da relevância da discografia italiana.’
Por fim, numa ponte entre o espetáculo e o sentimento de nação, Conti sugeriu que os medalhistas das Olimpíadas de Milão-Cortina 2026 poderiam ser celebrados no palco de Sanremo, transformando a música num espaço de homenagem aos feitos nacionais: ‘Seria bonito ter um grupo de medalhistas para celebrar no palco estes resultados fantásticos’.
Mais do que uma defesa de escolhas pessoais, as palavras de Carlo Conti soam como um manifesto sobre autonomia artística e a capacidade do Festival de Sanremo de funcionar como um reframe da realidade cultural italiana — um roteiro oculto que, mesmo em meio a controvérsias, insiste em voltar ao que importa: as canções.





















