Por Chiara Lombardi — Em Roma como se nas salas de um festival se escrevesse mais do que canções: se reflete a máquina do tempo cultural que é o Festival de Sanremo. Na conferência de imprensa inaugural do Sanremo 2026, Carlo Conti e Laura Pausini entregaram, mais que informações logísticas, uma pequena cápsula de memória coletiva: lembranças de Pippo Baudo, declarações sobre polêmicas recentes e o imbróglio — logo desmentido — sobre a possível presença da primeira‑ministra.
O tom foi, desde o início, emotivo. Conti rompeu a voz ao falar de Pippo Baudo, definindo-o como “maestro e farol” e recordando que já no ano passado havia dito que seu Festival teria inspiração baudiana. “É uma emoção conduzir o primeiro Sanremo sem ele. É doveroso dedicar este Festival a Pippo”, disse, revelando ter afixado uma placa fora de seu camarim em homenagem ao veterano. A imagem é um espelho do nosso tempo: o palco como arquivo de afetos e tradição.
Laura Pausini, que dividirá a condução com Conti, também se emocionou ao rememorar o Sanremo de 1993, aquele que a lançou. Contou que, após o convite para a co‑condução, ligou para Baudo buscando um conselho — e ouviu dele um empurrão decisivo. “Se o Carlo me dá serenidade e me segura a mão, sinto uma carícia aqui”, disse ela, apontando para a cabeça, numa metáfora quase cinematográfica do suporte que artistas recebemos dos antecessores.
Entre a ternura e a cortina de relatos, a conferência não poupou pontos quentes. O caso do comediante Pucci, que se autoexcluiu do Festival diante de críticas relacionadas a seu posicionamento político, foi rapidamente abordado. Conti procurou apagar possíveis interpretações políticas sobre a plateia artística que convoca: “Minha história fala por mim: trabalhei com um governo e com outro… sou um homem livre e independente. Preferisco che si dica che non so fare il mio mestiere che sentire che mi tirano la giacca e dicono che ho preso qualcuno per appartenenza.” A declaração traça o contorno do papel do apresentador como aquele que, no roteiro oculto da sociedade, equilibra show e neutralidade.
Outra faísca foi o rumor sobre a participação da primeira‑ministra Giorgia Meloni na prima serata. A RAI afirmou não haver contatos com o Palazzo Chigi e Conti classificou a hipótese como “pura fantascienza”, acrescentando que, como cidadã livre, ela poderia — se quisesse — comprar um ingresso. A própria Meloni utilizou a plataforma X para desmentir a informação: chamou a notícia de “totalmente inventada” e afirmou que “Eu continuo a fazer o meu trabalho. E sono sicura che Sanremo saprà brillare senza ospiti immaginari.” A troca de mensagens realça a semiótica do viral: boatos que circulam mais rápido que protocolos institucionais.
Ao fim da conferência, entre homenagens e recados políticos, surgiu ainda a programação de presenças: foi anunciado que, na quarta‑feira, estarão presentes Lollobrigida e Vittozzi, nomes que prometem adicionar outras camadas ao mosaico do Festival. A sensação geral é de um evento que não é apenas espetáculo, mas um reframe da realidade onde memória, representação e política se encontram no mesmo palco.
Sanremo 2026 começa, portanto, com a eficácia de um prólogo: compromissos emocionais — como a homenagem a Baudo — e tensões públicas — como os boatos e a polêmica com Pucci — colocam o Festival no centro do debate cultural. Como num roteiro bem escrito, resta ver como a narrativa se desenrolará nas noites seguintes, enquanto o público e a crítica acompanham cada cena deste espelho do nosso tempo.






















