Sanremo 2026 amanheceu com sol e com a habitual mistura de espetáculo e comentário cultural que transforma o Festival no espelho do nosso tempo. Em tom leve e irônico, Carlo Conti brincou sobre a flutuação dos números de audiência: “Hoje a Sanremo parece verão. Esta manhã, lá pelas 9h30, fui me expor ao sol por uns dez minutos de maiô só para dar um ar mais vivo à pele. Agora entendo por que a platea televisiva cai: calor dá vontade de ficar fora”.
O apresentador reiterou algo que só poderia ser dito com a elegância de quem domina o ofício: a segunda noite costuma registrar queda de share, e era previsível um recuo — mas, surpreendentemente, o índice subiu. Com humor quase cartesiano, ele disse: “Era previsto o calo, porque a segunda cala sempre. Invece è aumentato. O mérito não é do diretor artístico. Disto eu tenho certeza”. Em tradução livre, o comentário brinca com a relação ambígua entre responsabilidade artística e estatística: “As audiências diminuem e a culpa é do diretor artístico; o share sobe e o mérito não é do diretor artístico”.
Conti também evocou a complexidade do cenário que influencia números: “o tempo, as partidas e contrapartite, as ruote e le controruote” — uma enumeração quase cinematográfica de variáveis externas que moldam o desempenho do Festival. Como um diretor de cena que sabe que o plano geral inclui fatores que fogem ao controle, ele observou que o bom tempo leva o público às ruas.
Tranquilo fora dos holofotes, Carlo Conti descreveu sua rotina pós-show: trocar a camiseta e os boxers, voltar ao hotel e adormecer sem angústia. “O que vocês veem é a ponta de um iceberg, construída em meses de trabalho com serenidade, energia e diversão” — uma imagem que reverbera como metáfora do esforço invisível por trás do brilho instantâneo do palco.
Sobre o futuro, Conti foi claro: este ciclo foi o seu último Festival, independentemente do resultado. Questionado sobre a possível transição para nomes como Stefano De Martino — sugerido pelo sottosegretario alla Cultura Gianmarco Mazzi como um ‘condutor e showman’ — Conti foi pragmático e sereno. E descartou protagonismo no evento de verão: “Condurre Sanremo Estate a julho? Não. Eu farei Sanremo Top nos dias 7 e 14 de março, de Roma, e depois stop”.
O tema da representatividade feminina no palco do Ariston voltou ao centro das perguntas. Conti assumiu a responsabilidade por suas escolhas: “Eu escolho com base nas canções que me são apresentadas” — e usou duas analogias precisas: a do florista, que oferece o que há disponível, e a da vindima, em que cada ano tem sua safra. “Eu esperava que mais mulheres apresentassem canções este ano, mas infelizmente não foi assim”, disse ele, sugerindo que o momento discográfico favorece a produção masculina.
Entre a fala de Conti e a breve declaração de Irina Shayk, que afirmou estar “honrada de pisar o palco do Ariston“, há uma narrativa mais ampla: Sanremo 2026 funciona como um barômetro cultural onde música, imagem e indústria se encontram. Como observadora, enxugo essa cena como se fosse um take longo de cinema — onde cada plano revela pistas sobre identidade, mercado e memória coletiva.
Enquanto os números se acomodam e as conversas sobre direções futuras se repetem nos bastidores, fica a certeza de que o Festival continua a ser um roteiro oculto da sociedade, um eco cultural que vale analisar para além das tabelas de audiência.





















