Sanremo 2026 acende discussões que vão além do palco e da canção: os números de audiência, a composição do elenco e, sobretudo, o futuro comando do festival voltam ao centro do debate. Em meio à confirmação repetida do adeus de Carlo Conti, já se desenha uma disputa pela sucessão — e, segundo fontes próximas, Stefano De Martino aparece como favorito.
Durante a conferência, Conti adotou a sua costumeira humildade: “Prevíamos um recuo, porque a segunda serata costuma cair. Em vez disso, o share aumentou e o mérito não é do diretor artístico, disso tenho certeza”. O apresentador destacou ainda as escolhas editoriais: menos canções em cena na segunda noite e mais espaço ao varieté, além de lembrar fatores externos que afetam audiência, como partidas de futebol e atrações concorrentes.
Os números, porém, contêm contradições que funcionam como um espelho do tempo. A segunda noite de Sanremo registrou 9.054.000 espectadores com 59,5% de share, contra os 11.800.000 (64,6%) do ano anterior — uma perda de mais de 2,7 milhões de telespectadores. Se, de um lado, o índice de participação continua alto, do outro a dimensão do público caiu: a plateia televisiva total passou de cerca de 18 para 16 milhões, refletindo um fenômeno mais amplo que atinge a TV generalista.
Estamos diante de um quadro que não é apenas estatístico, mas estrutural. A televisão tradicional envelhece em público e formato; as métricas isoladas disfarçam uma sensação de estagnação. Mesmo com resultados considerados bons pela Rai e por Conti, o festival segue em uma linha plana: pouco combustível para viralizar, escassos momentos de polêmica e poucas inovações que acendam a curiosidade de audiências mais jovens. Em termos cinematográficos, é como uma obra tecnicamente correta, porém sem aquele corte de iluminação que transforma cena em memória.
O debate mais inflamado dentro do Ariston, contudo, não é sobre share, mas sobre representatividade: das 30 canções em competição, apenas cerca de um terço são interpretadas por mulheres — um dado que provocou críticas imediatas. Conti respondeu apontando que a seleção foi feita a partir das canções recebidas: “Escolho as músicas, independentemente de quem canta. A seleção é um buquê que você completa com as flores disponíveis”. A resposta tem o tom de quem vê o festival como curadoria, mas a crítica insiste: a indústria musical atravessa ciclos que se refletem estratificados no palco.
Enquanto a última conferência marcará simbolicamente o fim do biennio de Conti neste domingo, já se debate nos bastidores quem pegará o bastão. A corrida pelo posto de apresentador do próximo ciclo está aberta e Stefano De Martino, conhecido do público por programas populares como “Affari tuoi”, surge em posição de destaque nas conversas entre produtores e na imprensa. Não se trata apenas de escolher uma face para o palco: é escolher um tom, um espelho para o festival no reflexo da sociedade.
Paradoxalmente, Conti anunciou que retornará em julho com Sanremo Estate, confirmando a sua presença em projetos ligados ao evento. E, como nota final com traço humanizante, ele — que conserva o bronzeado como parte da imagem pública — fez saber que continuará a cuidar da aparência até o último dia no Ariston.
O que Sanremo 2026 nos deixa, portanto, é menos um veredito musical e mais um roteiro oculto sobre o estado da comunicação cultural italiana: uma mistura de resistência e desgaste, de tradição e urgência por renovação. Na próxima edição, será fundamental que quem entrar no papel de apresentador consiga não apenas comandar a transmissão, mas reescrever a semiótica do festival — transformar uma plateia que encolhe em um público que volta a se reconhecer na história que se conta no palco.






















