Sanremo 2026 viveu nesta tarde uma conferência de imprensa carregada de simbolismo, que antecipou a tensão e a poesia da finale do Festival. No encontro com jornalistas e artistas, ficaram claras as pequenas narrativas que compõem o grande roteiro do evento: reconhecimento institucional, fragilidade artística e demonstrações de talento que ecoam além do palco.
O momento mais institucional foi a entrega de um prêmio a Carlo Conti pelo presidente da Assomusica. A comenda foi motivada pelo trabalho de Conti à frente do festival e, sobretudo, pelo seu empenho em envolver jovens artistas na programação. Ao receber a homenagem, Conti foi aclamado pela plateia — uma ovação que funcionou como um espelho do público para a trajetória do apresentador, lembrando que Sanremo não é apenas espetáculo, mas também palco de continuidade cultural.
Em outra ponta do espectro emocional, o repórter-raper protagonista do festival falou com franqueza sobre fragilidade. Suas palavras ressoaram como uma cena íntima dentro do grande cenário coletivo: confessou que, longe da imagem do artista invulnerável, existe um trabalho de resistência e sensibilidade. O músico também revelou, de forma espontânea, que torce por Sayf, sinalizando coalizões afetivas entre colegas que, muitas vezes, não aparecem nas manchetes, mas definem o clima humano do concurso.
Houve ainda espaço para curiosidades técnicas. O músico Luca Stocco chamou atenção ao submeter-se a provas de ouvido absoluto. Esses testes, aplicados à luz das câmeras, não foram mera exibição: serviram para lembrar que por trás do espetáculo existe uma cadeia de habilidades e saberes musicais. A cena foi um pequeno laboratório onde a perícia sonora se transformou em narrativa, um refrão técnico dentro do grande hit midiático.
Como observadora cultural, percebo neste conjunto de gestos — homenagem, confissão e demonstração de técnica — um roteiro oculto que diz muito sobre o estado atual do entretenimento. Sanremo continua a ser, como um filme premiado, um dispositivo de memória coletiva: ele recruta jovens vozes, revisita certezas e aposta em momentos de verdade que desafiam a superfície glamourosa. O prêmio a Conti articula passado e futuro; a fala do rapper traz à tona a humanidade dos intérpretes; as provas de Luca Stocco valorizam a artesania sonora em plena vitrine midiática.
Na véspera da final, essas pinceladas compõem o quadro de expectativa. O festival, ao mesmo tempo em que se apresenta como evento e entretenimento, funciona como um eco cultural — onde cada gesto reverbera na forma como entendemos identidade, sensibilidade e talento. A conferência de imprensa foi, portanto, um aperitivo denso: uma sequência curta, mas reveladora, do que o público verá quando as cortinas se abrirem para a noite decisiva.
Chiara Lombardi – Espresso Italia






















