Por Chiara Lombardi — Em uma fala direta e sem rodeios durante a conferência de imprensa da terceira noite, Carlo Conti, apresentador e diretor artístico do Sanremo 2026, comentou sobre a crítica relativa à aparente menor presença de mulheres entre os concorrentes deste ano. O tom foi de responsabilidade profissional: segundo Conti, as escolhas foram feitas com base nas canções apresentadas.
Ao responder a uma pergunta de uma jornalista sobre a “pouca presença feminina”, Conti afirmou: “Eu me assumo a responsabilidade pelas escolhas que fiz com base nas canções que foram apresentadas”. A metáfora que usou é quase cinematográfica — ele comparou a seleção ao ato de escolher flores num ateliê: observa-se o que está disponível e, a partir disso, faz-se uma seleção. “É preciso fazer escolhas — disse — e, claro, pode acontecer de errar, mas eu escolhi em função das canções”.
Conti foi além e trouxe outra imagem para dar contexto ao seu raciocínio: a do vinho e das safras. “Eu esperava este ano que muitas mulheres apresentassem músicas, e infelizmente não o fizeram — explicou o diretor artístico. — É como o vinho, vai por safras.” Em outras palavras, ele apontou para um momento do mercado: a produção discográfica masculina está, neste período, mais numerosa do que a feminina.
Essa explicação instala um espelho sobre a indústria: a curadoria de um festival como o Sanremo 2026 reflete, e ao mesmo tempo refrata, o que o próprio mercado musical oferece. Como uma analista cultural, é possível ler essa declaração como um breve diagnóstico do cenário discográfico atual, onde a visibilidade feminina pode depender tanto das plataformas de lançamento quanto das estratégias de produção e promoção.
A resposta de Conti também sublinha um conflito recorrente na história dos grandes palcos: até que ponto a curadoria deve ser um reflexo fiel do que chega às mãos do júri artístico, e até que ponto deve exercer uma função corretiva ou proposital em prol da equidade? Ao dizer que “assume a responsabilidade”, o diretor artístico coloca sobre si o peso da curadoria, mas não dissolve o debate sobre as causas estruturais que moldam a oferta musical.
Na semiótica do festival, a fala de Conti é parte do roteiro oculto que acompanha as decisões artísticas — um momento em que a organização precisa equilibrar autenticidade artística, expectativas públicas e pressões sociais. Se por um lado a justificativa é técnica e ligada à disponibilidade de repertório, por outro ela abre espaço para perguntas maiores: quais mecanismos na indústria favorecem ou não a presença feminina nas listas de envio e seleção? E como festivais centrais, que são espelhos culturais, podem atuar para transformar essa realidade?
Enquanto o debate segue, a atenção do público fica voltada para os próximos capítulos do festival: as escolhas já feitas entram em cena e, como num filme bem dirigido, o impacto será avaliado pelo público, pela crítica e pela própria história do Sanremo. Conti deixou claro que, por ora, a regra foi a da canção; resta ver como essa regra dialogará com as demandas de representação e diversidade que atravessam o contemporâneo.





















