Por Chiara Lombardi — Em uma segunda noite que oscilou entre o terno e o elétrico, Sanremo 2026 mostrou, mais uma vez, que o entretenimento é o espelho do nosso tempo: há espetáculos pensados e coreografados, e há rupturas que atuam como pequenas falhas de luz — e que, quando acontecem, iluminam outra narrativa. Foi essa energia subterrânea, esse roteiro oculto do festival, que se revelou nos gestos e nas canções desta etapa.
No coração da noite, Achille Lauro transformou o palco do Ariston num lugar de silêncio e de união. Um cone de luz, um microfone — e a música tomou a sala como quem puxa um fio que conecta todos. A interpretação de “Perdutamente” foi mais que uma performance: foi um tributo dedicado aos jovens mortos no incêndio de Ano-Novo, entre eles o jovem Achille Barosi, de 16 anos, cuja mãe já havia cantado o mesmo refrão sobre a sepultura do filho. Ali, a arte tornou-se memorial e a plateia levantou-se como resposta.
O que impressiona não é apenas o gesto em si, mas o poder de convocação da música: o coro que cresce, a emoção que transborda pela tela e chega às casas — é a semiótica do viral que se transforma em luto coletivo e em memória pública. Em poucas notas, Achille Lauro conseguiu fazer do momento um eco cultural, uma pausa que alterou o desenho da noite.
Se a reverência foi um movimento mais contido, a verdadeira scossa da noite veio com Lillo Petrollo. Homem de palco e filiado a uma forma completa de entretenimento, Lillo trouxe leveza e uma contagiante lição de dança: desafiou a sala a aprender a coreografia oficial do festival ao som de “E’ Sanremo” de Welo. Em tom de mestre de salão, envolveu plateia, público e as figuras centrais da noite — Carlo Conti, Laura Pausini e a coapresentadora Pilar Fogliati. Conti até desceu à plateia para puxar a esposa Francesca ao círculo — momento que quebrou a formalidade e recolocou o festival no terreno lúdico.
Pilar Fogliati trouxe suas gag criativas e uma personagem memorável: Uvetta Budini Di Raso, vinda do filme Romantiche. A atriz, envolta num vestido monospalla com brilho cangiante, fez da ironia social e do desconforto aristocrático uma crítica sutil — perguntando, em tom de ingenuidade afetada, se aquela grandiosa encenação anual era, de fato, um trabalho remunerado. A comicidade de Pilar mostrou como a performance pode também funcionar como comentário sobre fama, mercado e lazer.
A noite contou com quinze artistas em competição; abriu com Patty Pravo e fechou com Ditonellapiaga. Entre os nomes mais lembrados na noite estiveram Tommaso Paradiso, Lda & Aka 7even, Nayt e Fed, que integraram o grupo dos mais votados, conforme as primeiras reações do público e da crítica.
Sanremo, vista com a minha lente ítalo-brasileira, revela nesta segunda noite tanto o teatro da repetição — o espetáculo bem ensaiado — quanto as fraturas que nos lembram da existência política e afetiva da canção. Achille Lauro ofereceu um momento de esperança-funeral; Lillo nos lembrou que ainda há espaço, em meio à solenidade, para o riso coletivo e a dança. Juntos, esses instantes compõem o mosaico do festival: um espetáculo que é, por vezes, rito, por vezes espelho e, quase sempre, um mapa do que estamos dispostos a escutar e a lembrar.




















