Por Chiara Lombardi — Em uma noite que funcionou como espelho do nosso tempo, a primeira serata do Sanremo 2026 uniu homenagem, espetáculo e pequenas rupturas de tonalidade pop. O palco do Ariston abriu-se com variações de humor e memória: de tributos sentidos a brincadeiras sutis que revelam o roteiro oculto da televisão contemporânea.
A entrada de Can Yaman foi um desses quadros cinematográficos — elegante em completo preto, camisa com botões abertos e detalhe brilhante na jaqueta, ele cruzou o palco ao som de Sandokan, trazendo uma figura que mistura iconografia televisiva e a performatividade do ator-modelo. Em clima descontraído, provocou Carlo Conti e Laura Pausini, pedindo que experimentassem segui‑lo em uma frase turca: em cena, a linguagem vira gesto e humor, e Pausini, com graça, tentou imitar o “cheguei como um filhote”.
Momentos de silêncio e lembrança marcaram a abertura. Carlo Conti conduziu um emocionante tributo a Peppe Vessicchio, maestro e arranjador que faleceu em 8 de novembro aos 69 anos. A tela do festival projetou clipes que reconectaram a trajetória do maestro com vozes históricas — de Mike Bongiorno a Pippo Baudo — compondo um mosaico afetivo que reafirma o papel do maestro como memória coletiva. Laura Pausini definiu bem o sentimento: Vessicchio entrou nas casas do público com a força do talento, mas também como um homem e um amigo.
Houve também menção a Maurizio Costanzo, outro nome que o festival colocou em perspectiva memorial — um lembrete de como o palco de Sanremo funciona como arena de cultura e arquivo.
No campo das performances, a noite alternou humor e linguagem contemporânea. Dargen D’Amico, concorrente com “Ai Ai”, que joga com o tema da inteligência artificial entre ironia e alerta, entrou risonho e com um traje cujo padrão lembrava um parquet espinha. Em um gesto performativo, retirou uma mão falsa ao chegar ao centro do palco — uma metáfora visual entre o humano e o artifício.
Mara Sattei emocionou ao fim de sua apresentação de “Le cose che non sai di me”, recebendo flores de Laura Pausini. A interpretação, contida e potente, confirmou o festival como palco de re-encenação da intimidade contemporânea. Sayf trouxe a estética do novo urban italiano com terno duplo peiteado e tranças; Michele Bravi, com um completo over e detalhes em vermelho, reforçou a presença dramática da sua canção “Prima o poi”.
Antes, Ditonellapiaga abriu as apresentações entre os grandes nomes e já movimentou o jogo do FantaSanremo, que segue sendo um barômetro participativo do público (com pontuações em tempo real). Por fim, o momento de reencontro geracional: Laura Pausini foi apresentada por uma clipagem de Pippo Baudo de 1993, quando ela estreou com “La Solitudine” — um retorno que é também uma ponte entre origens e presente.
Essa primeira noite teve a cadência de uma narrativa; um festival que diz muito sobre quem somos quando nos espelhamos no entretenimento. Entre homenagens e experimentos, Sanremo 2026 reiterou sua vocação: ser palco onde a memória e o contemporâneo se encontram, enquanto o público procura interpretar — e reagir — ao que vê. O roteiro continua nos próximos dias, e o Ariston segue sendo a tela onde se desenha o eco cultural do momento.






















