Por Chiara Lombardi — Enquanto o Teatro Ariston se prepara para acender as luzes em 24 de fevereiro, o ecossistema sonoro dos bolsos italianos revela um espelho curioso do Sanremo. Uma pesquisa encomendada por Facile.it ao instituto EMG Different mostra que mais de 1,9 milhão de italianos escolheram uma canção do festival como suoneria do celular — prova de que a trilha sonora do evento transcende o palco e invade a vida cotidiana.
Na liderança dessa playlist pessoal está novamente Olly, cujo hino vencedor de 2025, “Balorda nostalgia”, é a suoneria preferida de quase 180 mil italianos. Atrás, por uma margem estreita, figura Giorgia com “La cura per me”, escolhida por mais de 152 mil pessoas. Encerrando o pódio está Arisa, que, apesar dos 14 anos desde o lançamento de “La Notte”, soma mais de 118 mil usuários que acordam (ou são interrompidos) ao som desse clássico.
O ranking reflete uma cartografia afetiva: no quarto lugar aparecem os Coma Cose com “Cuoricini”; em quinto, Irama e sua “Lentamente”, seguidos de perto por Diodato (“Fai Rumore”) e Mahmood (“Soldi”). A lista das dez mais inclui também The Kolors (“Tu con chi fai l’amore”), Annalisa (“Sinceramente”) e outra vez Mahmood com “Tuta Gold”. Curiosamente, em 11º lugar revive a trajetória de Loretta Goggi com “Maledetta primavera”, lembrando como um clássico do Ariston pode permanecer no imaginário coletivo por décadas.
Além de mapear toques já adotados, a sondagem perguntou qual vencedora das últimas 20 edições os italianos escolheriam como suoneria ideal. A favorita absoluta foi Måneskin com “Zitti e buoni” — aprovada por 11% do total (quase 4,8 milhões) e por 19% dos entrevistados entre 18 e 34 anos. Em segundo lugar aparece Francesco Gabbani com “Occidentali’s Karma”, seguido por Marco Mengoni com “Due vite”.
Se perder o festival não significa desaparecer — antes, ocorre um reframe cultural —, a escolha por músicas que não conquistaram o troféu revela gostos que atravessam gerações. No ranking das não-vencedoras, o primeiro lugar é de Vasco Rossi com “Vita Spericolata” (penúltima em 1983). Em segundo ficou Colapesce e Dimartino com “Musica leggerissima” (quartos em 2021) e em terceiro, o imortal Lucio Dalla com “Piazza Grande” (oitavo em 1972).
Também se destacam Zucchero com “Donne” — que em 1985 passou quase despercebida no festival —, a já citada “Tuta Gold” de Mahmood, e a versão que acompanha gerações, Andrea Bocelli com “Con te partirò” (quarto lugar em 1995). Estes resultados sugerem que a memória coletiva prefere, por vezes, o eco emocional de uma canção ao seu posicionamento competitivo.
Mais que números, essa cartografia de suonerie é um pequeno inventário do nosso arquivo afetivo: o Sanremo funciona como um roteiro oculto que orienta lembranças, identidade e gusto musical. Em tempos de curadoria algorítmica, escolher uma suoneria é um gesto íntimo de curadoria cultural — um micro-palco onde ressoam memórias públicas.
Fonte: pesquisa Facile.it / EMG Different. Preparando as malas para o Ariston, ficamos atentos: que toque ocupará seu bolso nas noites do festival?






















