No palco do Teatro Ariston, a primeira noite do Sanremo 2026 ganhou um brilho que atravessou décadas: o encontro entre o ator indiano de 80 anos Kabir Bedi, lembrado por muitos como o Sandokan clássico da televisão, e a jovem estrela turca Can Yaman, que interpreta o mesmo icônico personagem no recente remake exibido pela Rai1.
A cena foi mais do que um crossover televisivo; foi um espelho do nosso tempo, uma sequência que costura memórias coletivas com a contemporaneidade do entretenimento global. No encontro, Bedi abriu o diálogo com uma reverência ao público italiano: “Obrigado pelo amor de vocês, pelo respeito que me deram em 50 anos”. Palavras simples, carregadas do peso histórico de um personagem que virou símbolo.
Can Yaman respondeu com um gesto de carinho e tradição: beijou as mãos de Bedi e tocou a testa do veterano — um gesto que, explicou, é costume entre os jovens e os mais velhos na Turquia. A troca foi de afeto e reconhecimento: há ali a consciência de um legado que se renova, não só de uma interpretação, mas de um papel que carrega responsabilidade cultural.
Em seu discurso, Kabir Bedi observou que o novo Sandokan possui uma narrativa “completamente diferente da minha”, mas que assistir à nova versão foi uma experiência prazerosa. “É interessante ver como mudaram as histórias dos personagens”, disse ele, lembrando que ser Sandokan é “uma grande responsabilidade” — uma figura que, além de herói de aventura, funciona como um ícone compartilhado entre gerações e culturas.
Ao se dirigir a Can Yaman, Bedi fez um comentário carregado de passagem de bastão simbólica: “Você é um digno sucessor”. Essa declaração ressoa como um reconhecimento público: trata-se de aceitar que mitos se reinventam sem perder a gravidade de seu significado.
No telão do Ariston foram exibidas as cenas lendárias em que Sandokan enfrenta e mata uma tigre. O apresentador explicou com cuidado: “Nenhuma tigre foi maltratada para realizar essas cenas”, e o próprio Bedi aproveitou para lançar um lembrete ambiental: “Devemos preservar as tigres” — uma observação que transforma um episódio ficcional em um chamado ético.
O clima foi quebrado com leveza por uma gag com Laura Pausini: ela anunciou aos dois atores que, infelizmente, não seriam os próximos a interpretar Sandokan. Então, surgiu um fotomontagem inesperado de Carlo Conti vestido como o herói e, em seguida, a icônica vinheta ‘Carlotan’ tomou o palco. O momento foi um exemplo sutil de como o show televisivo mistura homenagem, brincadeira e construção de imagem pública — o roteiro oculto da noite.
Esse encontro no Sanremo 2026 funcionou como um reframe da narrativa cultural: o mesmo personagem, visto por olhos e tempos distintos, revela que a memória coletiva é dinâmica. Entre o afeto de um veterano e a homenagem de um jovem ator internacional, restou a sensação de que a semiótica do viral e do clássico caminham juntas, compondo o eco cultural que nos define.






















