Por Chiara Lombardi — Em um cenário onde o entretenimento funciona muitas vezes como espelho do nosso tempo, Samurai Jay surge como uma figura que transforma memórias periféricas em canções com potência de manifesto. Aos 27 anos, Gennaro Amatore — artista por trás do nome de palco — chega ao Festival de Sanremo com a faixa “Ossessione”, um tema que ele define como o motor capaz de impulsionar escolhas e trajetórias.
O percurso musical de Gennaro Amatore começou nas guitarras de bandas punk e metal: «sfaccettature estreme della musica», lembra ele, numa imagem que traduz o contraste entre ruído e melodia que sempre o fascinou. Essa matriz ruidosa, porém, não destruiu a busca pela melodia — ao contrário: fincou raízes numa identidade que hoje flerta com o latin e o urban, sem perder a crueza das origens.
O projeto de palco nasceu com um espírito comunitário: tocar junto, divertir-se e fazer o público dançar. No palco, Samurai Jay se apresenta acompanhado por dois amigos, duas guitarras que trocam de mãos e um clima de karaoke que passeia entre a brincadeira e a homenagem — improvisos que vão de uma caricatura afetiva de Lucio Corsi a evocações de Lucio Dalla. Essa corte de referências desenha o que chamo de um roteiro oculto da sociedade, onde a cultura popular se encontra com a ambição individual.
O primeiro grande salto do artista para o público massivo veio via TikTok, com o viral “Halo”, no último verão, abrindo caminho para a sua estreia no palco maior italiano. Sobre “Ossessione”, Jay explica: «A obsessão é o motor, é aquilo che muove tutto, è il voler fare di più. Si tratta di un’ossessione sana e positiva» — um reframe da palavra que, na sua leitura, virou força criativa e não um peso destrutivo.
Orgulho é palavra que volta sempre quando Gennaro fala de suas raízes em Mugnano, na periferia de Nápoles. Ele reivindica o papel de dar voz a uma província «dimenticata e lasciata a se stessa», onde os jovens aprendem a sobreviver, mas nem sempre a sonhar livres de julgamentos. «Se você tem fantasia, acaba sendo rotulado, “quello lì vuole fare l’artista”», comenta o músico, apontando o estigma que persegue quem ousa imaginar uma saída artística.
Samurai e Gennaro são, segundo ele, faces da mesma moeda: «Entrambi ragazzi pieni di sogni, ma Samurai ha avuto più spocchia, ci ha creduto, ha messo un punto alle frasi di Genny». Essa dicotomia entre persona e alter ego funciona como um espelho — tanto pessoal quanto cultural — do que significa emergir da periferia com ambição artística.
Na noite das cover, o cantor traz uma versão de “Baila morena”, de Zucchero, acompanhado por Roy Paci e por Belen. Uma escolha que tem tanto de nostalgia radiofônica — uma canção que o deixa feliz desde a infância — quanto de decisão estética: o arranjo ideal pedia o trompete de Roy e a presença magnética de Belen. «Belen “è” quella canzone», resume ele com humor e reconhecimento do poder das imagens pop.
Mais do que um nome em cartaz, Samurai Jay representa um eco cultural: o encontro entre a subcultura do ruído e o apelo hipnótico da melodia, entre a periferia esquecida e o palco iluminado. É a semiótica do viral aplicada a uma narrativa de identidade — o roteiro de um jovem que, tendo acreditado, hoje canta para os que ficaram e para os que também querem ir além.
22/02/2026 — Espresso Italia






















