Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
A atmosfera da conferência de imprensa do Festival de Sanremo já trouxe suas notas de espetáculo — de ironias políticas a escalações surpreendentes —, mas é no roteiro musical que se desenha o verdadeiro espelho do nosso tempo. Entre as vozes que desembarcam no Teatro Ariston, surge com força jovem e urbana Samurai Jay, o nome artístico do napolitano Gennaro Amatore, de 27 anos, que estreia entre os big do festival com a contagiante Ossessione.
Do dia 24 ao 28 de fevereiro, quem assistir ao festival verá no palco uma mistura de reggaeton, funk e rap — a assinatura sonora que catapultou o artista de Mugnano após o hit de verão Halo, aquele refrão que viralizou e deixou na boca do público a frase “è tutto sbagliato”. Agora, com um figurino que remete a um Speedy Gonzales apaixonado, Samurai Jay leva ao Ariston uma narrativa de desejo urgente e celebração da vida: “Andale, andale! Scatta un paio di foto, poi mandale…”, versos que condensam a alma de Ossessione.
No aguardado momento da serata dei duetti, a proposta promete faíscas: um trio inusitado reúne Belén Rodríguez, Roy Paci e o próprio Samurai Jay numa versão picante de “Baila (Sexy Thing)”, sucesso de Zucchero de 2001 conhecido como “Baila morena”. “Baila morena parecia escrita para ela”, disse o cantor sobre a escolha de Belén — que, segundo ele, aceitou com entusiasmo e mostrou grande naturalidade e simplicidade durante os ensaios.
“Ela me surpreendeu pela humanidade”, conta o artista, que descreve uma relação de trabalho próxima: mensagens quase diárias e uma preparação intensa para entregar uma performance que, promete, “vai realmente spaccare” naquela noite. A química entre popstar, trompetista e rapper cria um reframe da canção original, uma leitura quente capaz de subverter expectativas e jogar luz sobre como o crossover cultural se manifesta hoje no mainstream.
A gênese de Ossessione é, curiosamente, humilde: nasceu numa run — “fazendo música a ruota libera”, nas palavras do cantor — sem pensar no palco sanremense. O arbítrio maior, porém, foi da crítica mais honesta que ele conhece: sua mãe. “O test di mamma è fondamentale”, diz ele; o primeiro ouvido que validou o single foi o dela, e essa aprovação tem um peso simbólico e concreto para um artista que ainda mora em Mugnano.
Aliás, a cidade pequena celebrou a conquista com faixas nas ruas — uma delas feita pela própria mãe do músico — e gestos que transformam a trajetória em um roteiro quase cinematográfico: voltar para casa no Dia dos Namorados para dar um bombom e encontrar, em vez disso, uma surpresa preparada pela família. “Para mim já é uma vitória ter vindo de um paesino come Mugnano e chegar ao Festival”, confessa. Ele segue morando lá, enraizado, e declara orgulho das suas origens.
Se o Festival é um palco de projeção, a presença de Samurai Jay é também um excerto do zeitgeist: a hibridação de gêneros, a ascensão de vozes periféricas e a leveza — quase cinemática — de transformar obsessões pessoais em refrões coletivos. Resta saber se, entre luzes e aplausos, essa mistura urbana e mediterrânea vai conquistar o prêmio. Por ora, o roteiro oculto que ele escreve no palco já diz muito sobre onde a música italiana contemporânea está se espelhando e para onde quer ir.






















