Chiara Lombardi – Espresso Italia
O episódio entre palavras e símbolos culturais que aconteceu em torno de Ermal Meta e Matteo Salvini revela mais do que um simples encontro de declarações públicas: é um espelho do nosso tempo, onde identidade, língua e política encenam um pequeno drama no palco do Sanremo.
O cantor, nascido na Albânia e reconhecido pela força narrativa de suas canções, havia observado em coletiva que, ao ver um texto premiado pela Accademia della Crusca escrito por alguém que é imigrante, “vale a pena se perguntar algumas coisas”. Brincou, ainda, que era “estrangeiro” e que não contassem isso a Salvini para não deixá-lo mal.
Ao que parece, a notícia chegou aos ouvidos do vice‑primeiro‑ministro. Salvini respondeu oficialmente parabenizando Ermal Meta pelo “perfeito uso da língua italiana” e apontando o artista como “um exemplo di integrazione no nosso país”.
Fatos: Ermal Meta, hoje com 44 anos, deixou a Albânia aos 13 e mudou‑se com a família para Bari, onde cresceu, estudou música em escolas italianas e completou o processo para obter a cidadania. Essa trajetória é mencionada por Salvini como prova de integração: “Io contrasto da sempre clandestini e delinquenti, e sono sicuro che anche Ermal Meta condivide questo mio pensiero. Un abbraccio al fiero popolo albanese, viva Sanremo, la lingua e la musica italiana”, disse o político.
Do meu ponto de vista, a declaração de Salvini funciona como um quadro: elogio e catequese política numa única moldura. Celebrar o domínio da língua é, claro, legítimo — a língua é um laço social e um território de pertencimento —, mas enquadrar a narrativa como “exemplo de integração” tem um roteiro oculto, que mistura mérito cultural com agenda política.
Essa cena traz à tona questões que não cabem apenas em manchetes: o que entendemos por integração? É a assimilação linguística suficiente para aprovar um indivíduo perante a nação, ou há um eco mais profundo — social, econômico e simbólico — que permanece fora da moldura? O artista que migra e cria obras em italiano reconfigura a memória linguística do país; sua trajetória não é só biografia, é um pequeno reframe da identidade coletiva.
No final, a troca de falas entre o artista e o político funciona como um micro‑cenário de batalha simbólica: música e língua como prova, política como palanque. Mais do que um episódio sobre bons usos do idioma, vemos a semiótica do viral em ação, onde um comentário em coletiva se transforma em peça de espetáculo político e cultural.
Enquanto isso, Ermal Meta segue no centro do festival, sua obra avaliada por instituições e público, e sua história de vida lembrada como parte inseparável do discurso público. Em tempos de narrativas tensionadas, a aposta mais honesta talvez seja escutar — com atenção de crítico e compaixão de cidadão — quem escreve e canta a língua que hoje diz representar a nação.
Atualizado em 26 de fevereiro de 2026.






















