Por Chiara Lombardi — O espetáculo de Sanremo ganha, nesta fase, uma tensão que extrapola o palco e reflete o roteiro oculto da sociedade: entre polêmicas políticas e decisões artísticas, a elegância simbólica vence a provocação momentânea. A supermodelo Irina Shayk foi confirmada como convidada na terceira noite do Festival e chega para substituir, em tom de presença estética, a vaga deixada pelo comediante Andrea Pucci.
Sem grandes alardes nas redes sociais, a entrada de Irina Shayk no Ariston funcionará como um passaporte de sofisticação. Não houve — e nem precisava haver — encontro cinematográfico entre a “Bella e a Besta”: saiu ele, entra ela. No eco cultural do evento, a estética como conteúdo sai fortalecida.
Enquanto Pucci parece não recuar de suas posições e da linguagem que o tornou viral, a arena política reage em trincheiras opostas. O prefeito Giuseppe Sala escolheu a ironia para responder, sem citar diretamente, ao presidente do Senado Ignazio La Russa. Em poucas palavras, Sala relativizou a centralidade do caso em sua agenda e comentou que, se por um lado se excluem acusações de moralismo – “não sono un bacchettone” –, por outro espera que, “à mesa em sua casa, as conversas não sigam o tom” atribuído ao comediante. É uma resposta que mistura distância institucional e um reframe sutil do debate público.
Do outro lado, a ministra do Turismo, Daniela Santanché, criticou o que chamou de doppiopesismo: apontou que o tratamento aos representantes de direita seria mais severo e pediu o fim de distinções hierárquicas no juízo moral sobre vozes públicas. “Não somos de série B”, afirmou em defesa de igualdade de direitos e deveres.
O caso ganhou dimensão midiática ainda nas ondas do rádio com a intervenção espirituosa de Fiorello, no seu programa Pennicanza na Radio2. Fiorello celebrou a viralidade que a imitação de Pucci lhe rendeu, brincou com rótulos ideológicos e transformou a controvérsia em gag — mencionando, com humor ácido, até estátuas e convenções canceladas. A anedota sobre a conveniência comercial (a suposta anulação de um evento pela Conad) e a contraposição irônica com a Esselunga ilustram como o mercado também trama seu roteiro no cenário do debate público.
Enquanto isso, Carlo Conti, figura-chave na condução do Festival, optou por silêncio: surpreso e incomodado com a renúncia de Pucci, mas consciente de que o espetáculo deve seguir. E segue: com a chegada de Irina Shayk, Sanremo acrescenta ao elenco uma figura internacional cujo papel, para além do brilho, funciona como um espelho sobre as escolhas estéticas e culturais do evento.
O episódio confirma que o Festival é, sempre, mais do que entretenimento. É um pequeno cenário de transformação: aqui se reflete a semiótica do viral, a tensão entre tradição e ruído, e como a memória coletiva reage quando um comediante, um político e uma supermodelo cruzam a mesma narrativa. No fim, a cidade do Ariston não perde o compasso: muda o figurino, mantém o enredo — e nos convida a olhar, outra vez, para o porquê por trás do espetáculo.






















