Sal Da Vinci, recém-coronado vencedor do Festival de Sanremo com a canção “Per sempre sì”, desvendou em entrevista os instantes íntimos logo após o anúncio. Enquanto Laura Pausini abria o envelope, Sal confessa que o pensamento mais humano foi o desejo de tocar o troféu. No palco, segurou a mão de Sayf como quem protege um sobrinho — “ele é mais jovem que meu filho” — e sentiu que aquela vitória pertencia a todo o pódio.
Com a cabeça já projetada para outro grande palco, o artista falou sobre a possibilidade de levar a Itália ao Eurovision Song Contest. “É um motivo de orgulho levar nossa música para fora. A música tem essa força de agregação, é um símbolo de paz e de múltiplas belezas”. Embora cogite uma versão em espanhol de “Per sempre sì”, Sal acredita que, no Eurovision, a peça deve ser apresentada em sua forma original.
Sobre as mensagens de carinho, Sal revelou ter recebido um telefonema de Geolier — e não por acaso: “Gostaria de dividir este primeiro prêmio com ele, porque a sua obra naquele Festival ficou em aberto” (Geolier ficou em segundo lugar em 2024). Esse gesto aponta para uma generosidade que atravessa o momento solene do vencedor e reframeia a premiação como um eco compartilhado.
O percurso de Sal não nasceu de um sucesso imediato. Filho do palco, nascido em Nova York em 1969, descreve a infância como sacrificada ao teatro: “não tive cavalinho, não brinquei muito — descobri brincar quando me tornei pai”. Desde menino, aos 7 ou 8 anos, vivia o teatro como um aquário de cores e possibilidades, fazendo três recitas por dia. A memória do palco, para ele, é uma caixa mágica que moldou a voz e a percepção artística.
Na trajetória musical, episódios decisivos: em 1985 James Senese escreveu uma canção para ele que não deu certo comercialmente, e Sal acabou temporariamente sem trabalho, voltando-se então para a composição. Em 1994, venceu o Festival Italiano do Canale 5, apresentado por Mike, mas admitiu que aquilo não significou o fim das dificuldades. A teimosia do palco levou-o de volta à sceneggiata e ao teatro; em 2001, foi escolhido por Roberto De Simone para protagonizar a Opera buffa do Jueves Santo — uma escolha que sua esposa o convenceu a aceitar por necessidade.
Se há uma palavra que marca sua relação com Sanremo é persistência: “fui bocciato treze vezes no Festival”. Em 2009 chegou ao terceiro lugar — e lembra com afeto a existência de estatuetas também para segundo e terceiro lugares naquela edição, um gesto que, segundo ele, poderia ser reintroduzido como consolo simbólico.
O ponto de virada em sua discografia veio com “Rossetto e caffè”, a canção que ele próprio define como transformadora para sua carreira. Hoje, após a vitória em Sanremo, Sal encara o futuro com a lucidez de quem reconhece o palco como espelho do nosso tempo: não apenas um lugar de brilho, mas um cenário de transformação que guarda roteiros ocultos da vida cultural italiana.
Enquanto organiza agendas e remarca datas que bateriam com o Eurovision, Sal Da Vinci personifica uma narrativa maior: a de um artista que atravessou recusas, reinventou-se no teatro e voltou ao centro com uma canção que fala de permanência e afeto. É essa camada humana — entre o brilho do troféu e o trabalho de anos — que torna sua vitória menos um ponto final e mais um recomeço no roteiro da música italiana.






















