Por Chiara Lombardi – Em um cenário onde a música funciona como espelho do nosso tempo, Sal Da Vinci retorna ao palco do Festival de Sanremo com uma canção que é, simultaneamente, declaração de fé e retrato da tensão entre tradição e visibilidade digital. O napolitano entra na competição com Per sempre sì, um tema de estirpe neomelódica que promete reacender discussões sobre identidade, gênero e memória afetiva na canção italiana.
Sal revive um capítulo famoso da sua carreira: em 2009, depois de 13 recusas ao longo dos anos, ele foi finalmente admitido em Sanremo com Non riesco a farti innamorare. Eliminado na segunda noite e depois repescado, chegou ao pódio — um feito que, na narrativa pública, deveria ter sido o início de um impulso. Mas a realidade pós-festival foi diferente. “A casa discográfica não me ajudou”, recorda o artista. Sem o suporte esperado, ele voltou às raízes do palco, retomando o trabalho nas comédias napolitanas.
O que muda o roteiro é a virada dos últimos anos: a vida musical de Sal foi salva por uma canção que nasceu de uma cena doméstica e se transformou em fenômeno global. Ao piano, com o sobrinho, ele improvisou uma melodia enquanto entoava palavras em um inglês falso — e dali emergiu Rossetto e caffè, de 2024. A faixa explodiu nas redes: viralizou no TikTok e acumulou cerca de 500 milhões de streams entre áudios e vídeos. Usada para declarações de afeto até na Nova Zelândia, a música é um exemplo de como a semiótica do viral pode reescrever trajetórias já dadas como encerradas.
No novo tema, Per sempre sì, Sal explora a promessa amorosa “diante de Deus”: um compromisso que resiste ao tempo e às turbulências. “As promessas hoje em dia não se mantêm mais”, diz ele, propondo um reframe sobre o sentido de família e responsabilidade emocional. A canção se apropria do registro apaixonado e carnal que muitos chamam de neomelodico. Para Sal, essa etiqueta só faz sentido se reconhecermos em ela um modo de cantar ligado à tradição popular — e não um rótulo pejorativo para ghettoizar artistas.
Ao longo da carreira, o cantor trabalhou com nomes que atravessam gerações e cenários musicais distintos: de Ornella Vanoni a Renato Zero e Gaetano Curreri. Essa biografia, entre o palco teatral e as prateleiras digitais, revela o roteiro oculto de uma trajetória que insiste em se reinventar.
Sanremo, para Sal Da Vinci, não é só competição: é um palco de reencontros e de reavaliação pública. Entre o cassino e a orla, entre o velho camarim e o streaming que soma milhões, sua presença evidencia um fenômeno maior — a música popular como um laboratório onde memória, identidades regionais e a esfera global se encontram. Se a canção pode mudar a vida de um artista, como já dizia um antigo diretor artístico, a novidade é que hoje essa mudança também pode vir de um vídeo curto e de um gesto íntimo ao piano.
Em tempos em que o viral reescreve carreiras, Per sempre sì surge como um testemunho: a promessa de permanecer não é apenas tema lírico, é um manifesto sobre como a arte resiste, se adapta e encontra novas plataformas para sobreviver.






















