Em uma conversa franca e cheia de pequenos cortes de ironia, Ross, metade do duo cômico Gigi e Ross, revelou nuances pessoais e profissionais ao programa Ciao Maschio, apresentado por Nunzia De Girolamo e transmitido no sábado, 7 de fevereiro, às 17h05, pela Rai1. A entrevista, que mistura humor e introspecção, desenha o perfil de um artista que olha para a própria trajetória como se relesse um roteiro em que algumas páginas foram viradas sem aviso.
Logo no início, Ross trouxe à tona uma aparente fricção nos bastidores: “Aos 30 anos de Zelig, que celebraram recentemente, não nos convidaram”. A frase seguiu com uma piada, mas deixou transparecer um ressentimento sutil: “Não encararam bem a situação do ‘Made in Sud‘”. Ainda assim, o comediante reforçou que a rotina segue — “assim que terminarmos aqui, vamos gravar” — sinalizando que a resposta dele e da dupla tem sido a contínua produção de trabalho, mais perto do ofício do que da contenda pública.
O tom da entrevista se desloca rapidamente para uma dimensão íntima quando Ross fala da própria “renascença” pessoal. Ele confessa: “Eu renasci” — e dispensa o lugar-comum do corte de cabelo pós-renovação, afirmando que, para ele, renascer significou ser pai novamente. O encontro com Chiara em 2023 acelerou essa nova cena: união em 1º de abril e gravidez confirmada em junho. Em pouco tempo, Ross tornou-se pai pela segunda vez, experiência que o levou a revisitar e a valorizar a primeira paternidade.
A narrativa ganha uma delicadeza quase cinematográfica ao tratar do laço com o filho Mattias. “Com Matti comunicamos no silêncio. Aliás, ele se comunica mais do que eu”, relata, num trecho que parece retirado de um roteiro sobre afetividade íntima. Ross traduz a intimidade em gestos mínimos — um olhar, um toque — e descreve a sensação de encontro completo: “O mundo para e você pensa: ‘Eu estou bem assim'”. No entanto, a inquietação paterna permanece: “Minha maior pergunta é se o Matti percebe o meu amor”. Uma dúvida que humaniza o artista e desmonta a ideia do humorista sempre protegido por sua própria comédia.
Para quebrar a intensidade, Ross relembra ainda uma anedota sobre a amizade com Gigi: uma ex-namorada chegou a acreditar que os dois eram um casal — “A gente se gosta, é verdade” — uma piada que revela a íntima performatividade presente na vida pública de quem trabalha com riso.
Como observadora do zeitgeist, vejo nesse depoimento um refrão repetido: a cultura pop como espelho onde se projetam mágoas institucionais e renascimentos pessoais. Entre o caso de programas e festas de aniversário de formatos televisivos, Ross constrói uma narrativa em que a paternidade atua como reframe — transforma o enredo e reordena prioridades. Em cena, permanece um artista que, apesar de desconvites e ruídos, escolhe responder com presença — no palco, no estúdio e na intimidade de casa.






















