Por Chiara Lombardi para Espresso Italia — Havia grande expectativa para Rosebush Pruning, dirigido pelo brasileiro Karim Aïnouz e com roteiro assinado por Efthimos Filippou (conhecido pela parceria com Yorgos Lanthimos). A inspiração declarada em I pugni in tasca, o clássico de Bellocchio, alimentava esperanças de um reframe provocador do original. O resultado, visto em Berlim, contudo, afasta-se perigosamente do propósito crítico que fez do filme de 1965 um espelho do seu tempo.
Em ambos os filmes encontramos uma família disfuncional: três irmãos, uma irmã e um pai cego (note-se que, no filme italiano, era a mãe que não enxergava). Essa mudança de gênero do progenitor poderia sugerir um deslocamento radical de perspectiva, uma nova semiótica familiar. Mas o que se vê na tela é uma sucessão previsível de excessos — sobretudo explorações sexuais gratuitas — que mais parecem exercícios de choque do que peças de um discurso cultural coerente.
O grande problema de Rosebush Pruning é não compreender o cerne do que Bellocchio desmontava: não era apenas a rebelião antiburguesa, mas a capacidade de dissolver o discurso cultural dominante à beira do fim do boom econômico italiano, três anos antes do Maio de 1968. O clássico fechava um ciclo, mostrando uma instituição familiar patológica que prendia o indivíduo a um passado sufocante. Aïnouz e Filippou parecem imitar a superfície — a burguesia ociosa, as tensões domésticas — sem decodificar o roteiro oculto que tornava o original tão incisivo.
Algumas cenas apelam a metáforas visuais que beiram o óbvio: o uso do dentifrício como alegoria de limpeza, por exemplo, soa forçado e acaba reduzido a um truque visual que não se integra a uma crítica mais ampla. O que no cinema político e de autor é um gesto semiótico passa aqui a ser um episódio de choque por si só, uma sequência de provocações que não propõe uma leitura ou uma consequência narrativa.
Em Berlim, o filme foi, até agora, um dos mais decepcionantes do concurso — talvez o pior, segundo parte da crítica. A sensação que fica é a de um projeto que hesita entre a homenagem e a imitação e que, no processo, se distancia do mosaico cultural que justificaria sua existência. Não se trata apenas de reprovar exceções estéticas; trata-se de reconhecer que o novo filme não encontra um caminho autoral próprio e, por isso, é facilmente esquecível.
Como observadora do zeitgeist, vejo em Rosebush Pruning um retrato falho: há ambição, há talento e há referência, mas falta o movimento que transforma a inspiração em reflexão. No lugar do espelho do nosso tempo, resta um espelho estilhaçado que reflete cenas soltas, sem corte final. Para quem esperava uma releitura capaz de provocar debate e incômodo reflexivo, a recomendação é clara: esquecer ou, no mínimo, revisar as expectativas.
15 de fevereiro de 2026

















