Hoje celebramos os 80 anos de um artista cuja biografia parece escrita em cena: nascido em Saigon a 20 de fevereiro de 1946, filho de pai italiano e mãe francesa, Riccardo Cocciante construiu uma carreira que é, ao mesmo tempo, um roteiro íntimo e um espelho do nosso tempo.
Na entrevista que deu ao Corriere, Cocciante traça com serenidade a origem desse percurso: veio de uma família de melômanos, onde a presença do piano e do melodrama era tão natural quanto a respiração. Foi alimentado desde criança por óperas e canções — confessou amar o Barbiere di Siviglia e a leveza de Rossini, assim como as grandes obras francesas, entre as quais citou Faust. Do universo francês vieram também idólos que ajudaram a moldar seu ouvido e sua voz: Becaud, Aznavour e Léo Ferré.
Viver em Saigon até os 11 anos deixou marcas: ele não falava uma palavra de italiano ao chegar à Itália. O choque inicial com o mundo musical italiano — que lhe pareceu, então, hostil — logo se transformou em fascínio quando começou a descobrir a televisão e os festivais de Sanremo. Foi nesse ponto de encontro entre referências que Cocciante percebeu sua vantagem mais profunda: a de ser um artista de dupla cultura, capaz de transformar o encontro entre tradições em alquimia criativa.
Mas quem era Margherita, a personagem da canção homônima que atravessou gerações? Não é apenas uma musa; é um símbolo presente no repertório do compositor, uma figura que condensa emoções e memórias e que se tornou épico pessoal e público. A canção vive como um dos pontos altos desse percurso que combina canção popular, dramaturgia e afeto.
7 segredos de uma trajetória
- Raízes em Saigon: o nascimento em 20/02/1946 marca uma origem transcontinental que determinou sensibilidades musicais e culturais.
- Herança musical familiar: cresceu em ambiente de melômanos, com piano e ópera como alimento emocional.
- Amor por Rossini e a ópera: o gosto pela leveza do barroco-operístico e pela grande tradição francesa moldaram seu estilo.
- Ídolos franceses: Becaud, Aznavour e Léo Ferré são referências que explicam sua relação com a canção de autor.
- Chegada tardia à língua italiana: falou italiano apenas depois dos 11 anos, o que contribuiu para uma escuta atenta e híbrida.
- O encontro com Sanremo: a televisão e os festivais italianos foram o espelho onde começou a se reconhecer como artista.
- Uma arte de intersecção: decidiu explorar a alchimia entre as duas culturas — italiana e francesa — transformando-a em assinatura artística.
Como observadora que gosta de ler a cultura como se fosse um filme, vejo em Riccardo Cocciante o exemplo de um artista cujo trabalho funciona como um reframe da realidade. Não se trata apenas de sucessos: trata-se de uma semiótica do viral anterior à internet, uma maneira de traduzir afetos familiares e peças operísticas em canções que habitam o imaginário coletivo.
Se hoje comemoramos seus 80 anos, celebramos também a persistência de uma voz que atravessou fronteiras e décadas sem perder a capacidade de tocar. Em tempos em que o consumo cultural busca atalhos, a obra de Cocciante nos lembra que a verdadeira popularidade nasce do cruzamento cuidadoso entre memória, técnica e emoção. É o roteiro oculto da sociedade que, através de uma canção como Margherita, revela algo sobre quem fomos e sobre o que ainda podemos sentir.
Nos bastidores das redes e das celebrações, fica o convite para reassistir à sua discografia como se voltássemos a um filme que sempre deixa novas camadas a revelar: um eco cultural que convoca o público a ler além das letras e perceber as imagens sonoras que sustentam um legado.






















