Por Chiara Lombardi — Em um espetáculo que se comporta como um espelho do nosso tempo, Renato Zero iniciou em Roma a turnê L’OraZero, misturando teatralidade, crítica social e homenagens pessoais. A primeira noite, marcada por um vídeo controverso que confronta o tema do aborto e lança um olhar crítico sobre a política contemporânea, deixou claro que o show não quer apenas entreter: quer provocar.
O clipe exibiu a imagem de um feto “não desejado” que grita à mãe “Mi hai ucciso!” e uma bandeira tricolor italiana que se esmaece até tornar-se um pano branco — uma sequência simbólica que, mais do que uma rendição, funciona como um diagnóstico cáustico. Na sequência, o artista convocou à ação: “Esta é a hora zero para todos”, criticando aqueles que, nas suas palavras, “acreditam ainda ser crianças e brincam com o destino do mundo”. A convocação final foi política e comunitária: voltar às praças, reduzir desigualdades e restaurar vínculos.
O que se viu não foi um mero concerto, mas a continuação de um rito coletivo que Renato cultiva há 55 anos. O cantor — Álvaro Facchini no registro civil — entrou em cena vestido de branco, traje assinado por Armani, e comandou cerca de três horas de espetáculo entre monólogos, interlúdios visuais e sua conhecida teatralidade. “Grande Roma”, saudou ele, recebendo da cidade uma espécie de aplauso de confirmação: a relação do artista com a capital é um fio condutor que atravessa décadas de carreira e repertório.
A cenografia, assinada por Igor Ronchese, alternou o sonho cósmico e a memória: uma abertura espacial, quase operística, levou ao reencontro com No! Mamma no!, faixa que em 1973 simbolizou a recusa ao conformismo e ao cerne de uma educação conservadora. Renato lembrou as lições das ruas: “Agradeço à rua, onde encontrei de tudo — para mim a calçada substituiu os livros escolares”. Essa imagem traz o artista como um narrador que aprendeu o mundo no contato vivo com a cidade.
O setlist oscilou entre clássicos como Cercami e Il Carrozzone e as 19 faixas do recém-lançado álbum L’OraZero — um número raro na era dos singles. Ali, o cantautor desenha as contradições e utopias do novo milênio: discriminação e solidão continuam presentes, só que revestidas por novas formas. Ainda assim, a resposta que propõe é tradicional e resistente: amor, amizade e esperança.
Do ponto de vista cultural, o show funciona como um reframe: partitura, figurino e vídeo são elementos de uma semiótica que expõe medos coletivos e tenta costurar reações — entre denúncia e celebração. Para quem acompanha Renato desde os anos 70, a experiência confirma que seu palco continua sendo um laboratório de identidades, onde o passado e o presente entram em diálogo aceso.
Com 30 datas pelo país — muitas já esgotadas — e seis apresentações previstas em sua cidade natal, esta travessia ao vivo tem também a ver com afirmação autoral: L’OraZero foi lançado pela própria gravadora do artista, a Tattica, que também produz a turnê. Ao fim da noite, a sensação é a de uma obra que não se limita ao entretenimento, mas que age como um roteiro oculto da sociedade, convocando o público a ver além das luzes.
Imagem, memória, política e afeto: o primeiro ato da turnê deixa claro que Renato Zero não pretende oferecer respostas simples — prefere, como sempre, abrir perguntas e segurar o microfone enquanto o público decide onde cairá o pano.






















