Por Chiara Lombardi — Em um cenário onde o público busca sentido tanto no confessionário quanto no feed, a história de Alberto Ravagnani funciona como um espelho do nosso tempo. No fim de janeiro, o jovem sacerdote comunicou ao arcebispo de Milão a decisão de suspender o ministério presbiteral. Em vez das celebrações semanais, escolheu a exposição pública das redes: hoje são cerca de 285 mil follower no Instagram, 134 mil no TikTok (com 1,9 milhão de likes) e 160 mil inscritos no seu canal do YouTube.
É tentadora a comparação: será que estamos diante de um novo padre influencer no panteão da visibilidade? Quem acompanha a imprensa sugere que Ravagnani pode aparecer em salões televisivos — de Mara Venier a Caterina Balivo, passando por programas onde se debate público e privado. Há ainda um detalhe formativo que não deve ser esquecido: estudou na Pontifícia Universidade da Santa Croce, ligada ao Opus Dei. Essa biografia deu ao caso uma ressonância que ultrapassa o escândalo ou a curiosidade: toca o roteiro oculto da modernidade religiosa e da comunicação.
O fenômeno dos chamados “preti influencer” revela como as mídias sociais mimetizam estruturas de sentido parecidas com formas religiosas: os follower não são apenas espectadores, mas uma comunidade que compartilha valores, jargão e rituais — os comentários, os likes e as lives. Nessa gramática digital, a figura do influencer pode assumir um papel aspiracional, um tipo moderno de santo ou mártir, mostrando um caminho para uma vida que pareça significativa. É a semiótica do viral transformada em catequese.
Ravagnani mesmo, em conversa no podcast PoretCast, admitiu ter sentido uma “chamada” das redes sociais mais forte que a de Deus, confessa sentir-se ainda padre mesmo tendo mudado de rota e reconhece que segura algo que considera importante. A sua nova pregação está disponível em streaming e em todas as plataformas de áudio — o sermão migrado para o áudio-on-demand que encanta e fideliza ouvintes.
Mas nem tudo é mística nata: quando um perfil se torna rentável, as leis do mercado entram em cena. Houve patrocínios controversos — por exemplo, a promoção de suplementos — o que reacende a discussão sobre autenticidade e prestação de contas. A fé tradicional apoia-se em séculos de estabilidade; o algoritmo, em troca, recompensa novidade, ritmo e entretenimento. Se você deixa de postar, desaparece. Talvez o Instagram não tenha substituído a fé, mas certamente reconfigurou como as pessoas buscam pertencimento e sentido.
O caso de Ravagnani é, portanto, mais do que o impasse pessoal de um sacerdote: é um estudo de caso sobre a era em que a devoção e a audiência se encontram na mesma praça pública digital. É também um convite a olhar além do título sensacionalista: por que tantas pessoas preferem ouvir um guia espiritual através de um story do que de um púlpito? Qual é o roteiro cultural que transforma influenciadores em referências morais? Essas perguntas nos lembram que o entretenimento nunca é apenas diversão — é um palco em que se ensaiam as novas formas de comunidade e pertencimento.
Se existe um risco, é o da queda espetacular — pensemos nas celebridades que viraram caso de polícia ou riram-se da própria imagem. Mas também há uma chance de reinvenção: a pregação híbrida, entre sagrado e fluxo, entre tradição e feed, pode ser o reframe que parte da sociedade busca. O que nos resta é observar, com curiosidade sofisticada, qual será o próximo ato desse roteiro cultural.






















