Por Chiara Lombardi — Em mais um episódio desse duelo midiático que se confunde com um espelho do nosso tempo, Sigfrido Ranucci reapareceu ao final da edição de 18 de janeiro do Report com uma afirmação direta e de grande peso público: segundo a investigação apresentada, Luca Barbareschi deveria devolver oito milhões de euros relacionados aos financiamentos públicos destinados ao Teatro Eliseo.
A troca de farpas entre os dois já vinha se desenhando na semana anterior. No dia 11 de janeiro, Barbareschi, que apresenta o programa Allegro ma non troppo exibido logo após Report na Rai3, reclamou por não ter sido citado no momento em que o apresentador lhe passou a linha — e chegou a ameaçar querela por questões ligadas ao episódio envolvendo Bellavia. A resposta de Ranucci, portanto, veio em cadeia e com o tom das grandes narrativas investigativas: um fechamento de programa que funciona como percursor de um novo ato.
Os fatos lembrados por Ranucci não são inéditos: o jornalista já havia aprofundado o tema em investigações de 2022 sobre os recursos públicos destinados ao Teatro Eliseo, até então propriedade de Barbareschi. Segundo a reportagem, o teatro recebeu cerca de 13 milhões de euros em apoio público ao longo de cinco anos — e, na retomada da apuração, surge a estimativa de que há um saldo de responsabilidade que poderia alcançar os oito milhões de euros apontados pelo apresentador.
Do ponto de vista institucional, trata-se de uma acusação que ultrapassa o conflito pessoal entre duas figuras conhecidas da televisão e do palco italiano: é uma pergunta sobre o uso de dinheiro público em espaços de cultura, sobre a prestação de contas e a função do teatro como bem coletivo. Aqui entra a minha leitura cultural: o embate não é apenas sobre cifras, mas sobre o roteiro oculto que regula quem produz cultura e como o Estado decide premiar determinadas estruturas. O teatro, enquanto espaço simbólico, atua como um espelho — e quando o reflexo mostra sombras de gestão, a discussão ganha contornos civis e estéticos.
Barbareschi, que exerceu mandato parlamentar entre 2008 e 2013 e foi proprietário do Teatro Eliseo, tem agora a palavra para responder a essa nova investida pública. À imprensa e ao público resta aguardar se a sua réplica virá em tom legal, político ou midiático — e se essa réplica será suficiente para deslocar o foco do debate das cifras para os processos.
Por fim, convém notar como o formato televisivo molda a própria narrativa: o gesto de «passar a linha» entre programas e a retaliação em cadeia funcionam como dispositivo dramático—quase cinematográfico—que prende a audiência. Mas por trás desse dispositivo está uma questão mais ampla e duradoura: como garantir que o financiamento da cultura seja transparente e alinhe memória, identidade e responsabilidade pública no cenário de transformação que vivemos.
Fica, portanto, a expectativa pelo próximo capítulo desse embate entre jornalismo investigativo e protagonismo artístico: será a devolução dos valores reclamada por Ranucci judicializada? Ou a disputa seguirá como duelo retórico entre dois nomes que ocupam, cada qual a seu modo, espaços centrais na cena cultural e televisiva italiana?






















