Por Chiara Lombardi – Em um movimento que mistura diplomacia cultural e gestão pragmática do espetáculo, a Rai deixou claro que há uma vontade firme de ver Israel no palco do Eurovision 2026. A declaração foi feita por Giampaolo Rossi, diretor da emissora pública, durante um evento sobre serviço público realizado em Roma.
Rossi recordou que, apesar das tensões políticas, a música já atuou antes como palco de encontros simbólicos: “No Sanremo, no ano passado, subiram ao palco uma cantora palestina e uma israelense que cantaram juntas de forma extraordinária”, disse, citando o que definiu como um momento que funciona como espelho do nosso tempo.
Sobre as manifestações de posicionamento de alguns artistas — entre eles a cantora Levante, que chegou a afirmar que não aceitaria representar a Itália no Eurovision caso vencedora do festival — Rossi manteve um traço institucional: “Essa é a posição da Rai, que é absolutamente favorável à participação de Israel. As polêmicas que venham a surgir dizem respeito aos artistas”. Em outras palavras, a emissora separa a sua linha editorial e institucional das escolhas individuais de quem sobe ao palco.
Pragmatismo e calendário: a emissora quer saber já durante a semana do Festival di Sanremo quais artistas estariam dispostos a representar a Itália em Viena, onde acontecerá a 70ª edição do Eurovision. O vicediretor do Prime Time, Claudio Fasulo, explicou que a intenção é acelerar a coleta de respostas para ter um quadro claro das disponibilidades: pedir um retorno formal “pelo menos depois da primeira serata” e tornar essa manifestação vinculante, evitando mudanças posteriores que atrasem o processo.
Segundo Fasulo, a ideia é pedir feedbacks às gravadoras e aos artistas já na semana do festival, passando da fase de sondagem para uma solicitação oficial de adesão. A classificação final de Sanremo seguirá sendo o critério central: o vencedor tem o direito prioritário de representar o país, desde que tenha dado seu acordo. Em caso de recusa, a prática habitual é avançar na lista entre os artistas que se declararam disponíveis.
Fasulo também observou que, neste ano, parece haver um número expressivo de interessados em assumir a vaga. E quanto ao apelo para permitir a participação da Palestina, a Rai reafirmou sua postura: “A Rai não fecha os olhos” — uma frase que sugere atenção política e sensibilidade cultural sem, no entanto, alterar a posição institucional sobre o evento.
No plano europeu, lembra-se que, em dezembro passado, a União Europeia de Radiodifusão (EBU) aprovou por ampla maioria a participação de Israel no Eurovision 2026 em Viena: 738 votos a favor, 265 contra e 120 abstenções. Esse resultado consolidou o caminho para a presença israelense na competição, mesmo num cenário repleto de tensões e debates públicos.
Mais do que uma simples decisão de programação, a questão revela o roteiro oculto que permeia grandes eventos culturais: o Eurovision é hoje um palco onde se cruzam identidade, memória e diplomacia simbólica. A Rai procura, com medidas administrativas e declarações públicas, manter o equilíbrio entre o calendário artístico e a responsabilidade pública — um delicado reframe da realidade em que o entretenimento serve, novamente, como reflexão sobre o nosso tempo.






















