Por Chiara Lombardi — O cantor Raf volta ao palco do Festival de Sanremo para a sua quinta participação com a canção “Ora e per sempre”, uma composição promovida por um encontro íntimo entre memórias pessoais e a construção sonora contemporânea. A volta, porém, chegam acompanhada de lembranças amargas: sua última passagem pelo Ariston, em 2015, ficou marcada por uma bronquite que o deixou sem voz e por uma eliminação precoce na quarta noite do festival.
“Foi o pior lembrete das minhas cinco participações”, disse Raf ao recontar o episódio. Ele recorda a cena trivial e cruel: sentado à mesa com a esposa Gabriella e o seu manager, recebe em direto a notícia da eliminação — uma intervenção do chef que lhe chegou como uma notícia fria. Era o tempo em que os talent shows mudavam a dinâmica do Festival, e, segundo ele, a televisão começava a prevalecer sobre o juízo estritamente musical. Hoje, contudo, há mais serenidade: Raf aprendeu a ser menos severo consigo mesmo, lembrando que muitas canções mal recebidas no Ariston encontraram depois o afeto do público.
O retorno vem com uma colaboração íntima: “Ora e per sempre” foi escrita com seu filho, Samuele. Trabalhar em família, observa o artista, é uma alegria que exige sensibilidade — com um parceiro de trabalho convencional sente-se mais livre; com um filho, as palavras têm peso afetivo. As primeiras tentativas — lembra — foram desajeitadas, próprias da adolescência criativa de Samuele. Antes disso, pai e filho só haviam trabalhado juntos em “Samurai”, faixa que se transformou na trilha de um anúncio publicitário. A nova canção, entretanto, nasceu de um instante sereno: um esboço musical apresentado pelo filho que, ao piano, evoluiu até ganhar forma e letra em poucas horas.
O material narrativo da letra provém de um achado doméstico: um bilhete datilografado guardado em um gaveta — a promessa de casamento redigida quando Raf e Gabriella renovaram votos em Cuba, em 1996. Insatisfeito com o fechamento tradicional “finché morte non vi separi”, ele, de lápis, alterou a frase para “ora e per sempre” em espanhol, em acordo com o pároco que abençoou a cerimônia. Ali estava o título, e ali começou a construção do roteiro emocional da canção.
No cerne da música está a história de um casal nascido entre os anos 80 e 90 que precisa conviver com as transformações profundas do mundo. É um enredo familiar que funciona como espelho do tempo: a verdade hoje se perde entre milhões de vozes, obscurecida por fake news; o cinismo dos poderosos já era previsível, mas o que surpreende é a erosão da empatia entre pessoas comuns. Vivemos, alerta Raf, num contexto de privilégios ocidentais que se queixam de vidas complexas enquanto ignoram sofrimento alheio, especialmente de quem vive em zonas de guerra. Mesmo assim, o fecho é otimista — como em todo bom refrão pop, a canção promete uma aurora partilhada.
Em paralelo às memórias e ao trabalho com o filho, Raf recorda decidir deixar uma canção que escreveu para outros: “Si può dare di più”. Ele confessa que compôs a peça, mas optou por não interpretá‑la no palco. É uma decisão que mostra como, na trajetória de um artista, nem todo texto próprio encontra o sujeito adequado para ser cantado.
Ao refletir sobre o que restará dos anos 2020, o cantor assume cautela: é difícil resumir uma década que ainda se desdobra. Vivemos numa aceleração tão intensa que, dia após dia, notícias capazes de mudar rumos globais emergem. Ele cita, como sintoma, a instabilidade política internacional — episódios que remetem a governos que desafiam regras antes tidas como garantias de liberdade — e convoca uma atenção maior para a necessidade de empatia e memória coletiva.
Assim, a presença de Raf em Sanremo funciona como um pequeno reframe: não é apenas sobre competir, mas sobre contar uma história familiar — pessoal e política — que tenta traduzir em melodia as fissuras e esperanças do nosso tempo. É o roteiro oculto de uma sociedade que, ao som de um piano, ainda busca ver a aurora.






















