Por Chiara Lombardi — Quando a história pessoal vira canção, o palco deixa de ser apenas palco e assume a condição de espelho do nosso tempo. É o que acontece com Raf, que, após onze anos de ausência, retorna ao Festival de Sanremo 2026 com “Ora e per sempre”, um tema que nasce no lar e cresce com a memória afetiva.
O processo criativo começou quase por acaso: uma ajuda ao filho, o jovem Samuele. “Eu precisava ajudá-lo a montar a melodia de um refrão — conta Raf —, sentei-me ao piano e começámos a trabalhar. Depois ele disse: ‘Talvez seja melhor se a fizeres tu, deixo-a contigo'”. Esse gesto filial abriu uma via de mão dupla entre gerações, um roteiro oculto que transforma o privado em matéria artística.
Enquanto lapidava o texto, o cantor encontrou um bilhete amarelado de 1996, vindo de Cuba: promessas matrimoniais escritas por um sacerdote canadense quando se casou com Gabriella. Numa dessas linhas, a frase “até que a morte nos separe” foi riscadas — e Raf escreveu em espanhol “ora e per sempre“. Foi suficiente para batizar a canção e dar-lhe um eixo narrativo.
O resultado é um pedaço de autobiografia que segue dois jovens que se conhecem no final dos anos 1980, crescem enquanto o mundo muda e se endurece, e guardam a esperança como último traço de resistência. Há, no texto, uma crítica à falta de empatia dos poderosos com os povos oprimidos, mas o fechamento insiste no otimismo: “sei que quando o sol nascer nos encontrará ainda juntos” — uma linha que reafirma a convicção de que o amor pode prevalecer.
A colaboração com o filho não é apenas simbólica; é prática. Os dois preservam um rito diário à mesa e trabalham nos seus estúdios caseiros. “Trabalhar com os filhos é das coisas mais complicadas”, admite Raf, que reconhece tensões e fricções típicas de uma relação pai-filho. Samuele, com 25 anos, traz uma escrita mais atual e um olhar contemporâneo que complementa a experiência do pai.
Na carreira, Raf já esteve quatro vezes no festival — 1988, 1989, 1991 e 2015 — e confessa uma relação ambivalente com a competição. “Não gosto de fazer concursos. É forçado pensar que a minha canção é melhor que a tua”. Sobre o Eurovision, a avaliação é contundente: “Um baraccone, eu não iria” — uma posição que reflete o distanciamento crítico entre a dimensão artística íntima e o espetáculo massificado.
Curiosidades do repertório: entre as escolhas recentes do artista, há uma versão de “The Riddle” em chave reggaeton — mas não na linha de Bad Bunny —, uma reinvenção que confirma a capacidade de Raf de dialogar com linguagens contemporâneas sem perder a própria assinatura.
Mais do que a presença no palco de Sanremo 2026, o que interessa aqui é o gesto: um homem que reutiliza memórias, compartilha a criação com a próxima geração e transforma uma carta de casamento num refrão que pretende ser um refrão de resistência e de aliança. Em tempos de manchetes rápidas, essa canção é um convite a ouvir o roteiro oculto das nossas histórias e a reconhecer que o sucesso, para alguns artistas, pode ser mais significativo do que a própria vitória.






















